E accrescentou passados momentos:
—Olha cá! Dá-me da secretária a carta que o pequeno nos trouxe. Ha n’essa carta do Sebastião um periodo que me inquieta. É aquelle em que nos diz que o Eduardo lhe sahira com sua tendencia á poesia!...
—Ora!—proferiu D. Maria d’Assumpção, abrindo a secretária e entregando a carta ao marido.
João Nicolau de Brito montou os oculos, endireitou-se na cadeira e começou a lêr em voz alta:
«... O Eduardo ahi vae; penso que lhes não será rebelde, porque é humilde de si. Amolda-se ás vontades de quem o dirige e parece attentar gravemente no que lhe dizem. Ensinei-lhe tudo o que sabia e podia. Creio que com mais um anno d’estudos preparatorios estará habilitado para entrar n’um curso superior. O destino de meu filho já me não pertence, porém. Pesa me todavia que me sahisse poeta aos dezeseis annos e como por magia! Conheci em Coimbra um rapaz de muitissimos talentos e de seu natural poeta, que por se dar do coração á leitura d’amenidades e aborrecer de morte os alfarrabios da sciencia, teve que luctar com a vontade da familia, que o obrigava a estudar, e com a sua natureza, que o fazia detestar os compendios. Como, porém, não pudesse renunciar á espontanea inclinação, e como não tinha bens de fortuna, succumbiu a uma gravissima affecção moral, que o levou á sepultura, com grande magua de todos os que sabiam aquilatar-lhe a alma e a intelligencia. Desvaneçamos, porém, estas suspeitas; não quero que me chamem visionario. Ahi vae, pois, o pequeno...»
João Nicolau de Brito abanou a cabeça com um gesto solemne e descahiu a scismar.
Atalhou-o, porém, a esposa, batendo lhe no hombro e dizendo ao mesmo tempo:
—Deixa-te de visões! Tratemos de distrahir o rapaz. Iremos domingo ao Senhor do Monte.
—Olha! disse de subito João Nicolau de Brito, como se houvesse despertado d’um somno momentaneo. Ha, porém, um inconveniente n’esse passeio...
—Qual?