O filho do bacharel Valladares lia as cartas e redigia sobre as paginas d’um livro intimo as longas meditações das noites de insomnia:

«Vão engrinaldar-se de flôres as arvores do valle e tapetar-se de verduras os declives dos outeiros. Só a minha primavera não chega, Senhor. Só não voltam com as andorinhas as minhas esperanças de um dia. Embora. Deixaste que o anjo ficasse ainda na terra, e deixa tambem que se abrandem as angustias que não merece. Eu creio em ti, Senhor, mas choro nas trevas da minha noite, como tu choraste na cruz. Eras Deus e foste homem. Bem sabes o que é soffrer e chorar. Não me exaspero nem te maldigo. Tu eras filho do Eterno e soffreste; tu eras Deus e choraste lagrimas de sangue. Como ha de o homem, cuja vida custa dores, eximir-se ao pêso da sua cruz, se tu vergaste sob o madeiro? como não ha de chorar, se os tens olhos orvalharam o sudario da piedosa mulher?

«Perdoa-me, se choro, Senhor Deus de misericordia.


«Agonisante, orava profundamente», Factus in agonia prolixius orabat, dizia a inscripção da capella do Horto. E pediste-me tu, anjo e martyr, que entregasse á memoria o verbo das Escripturas!

«Querias dizer-me que me abraçasse á cruz nas horas de tribulação da minha alma, ou significavas que o teu espirito olhava para Deus na lenta agonia do teu supplicio?

«Era um incentivo ou um exemplo o que me apontavas?

«Se era incentivo, sabe que a minha alma só adormece quando sobe ás alturas, embalada na religião de meus pais. Se era exemplo, repetir-te-hei que comprehendo a extensão do teu soffrimento, que te vejo sempre ajoelhada deante do teu crucifixo e que abraçaria a tua fé, balsamo para todas as chagas, se desde o berço não houvesse apprendido a balbuciar o nome de Deus.

«Choro, e por me vêres lacrimoso não acredites na minha descrença.

«Devo dizer-te que me não abandona a fé.