«Só a Deus peço que enxugue as lagrimas dos teus olhos, que restitua ao teu coração as alegrias que eram d’elle. Este é o fito da minha esperança, o alvo da minha fé immensa.

«Entrou commigo o remorso de te haver amado. Fui injusto quando fiz estalar sobre a tua cabeça a tempestade das minhas desventuras. Choro a minha culpa, a minha injustiça, e peço a Deus que não complete a obra da tua abnegação.


«Levantas-te do leito quando as flores se levantam no pendor da serra. Põe os olhos no Céo, que ainda lá encontrarás a estrella confidente das serenas alegrias da tua infancia. Desvia-os da terra para me não vêres chorar. Não choro de desespero; choro porque tu choraste. As orações d’alguem, de minha mãe talvez, trouxeram do Céo balsamo para a minha alma. Se Frei Domingos soubesse das minhas amarguras, acreditaria que tinha orado por mim.


«E amo-te muito, mas porque te amo, Maria, não quero que os teus olhos chorem as minhas lagrimas. Que te esqueças de mim ou que succumbas, este é o meu pedir. E não ha impiedade na minha súpplica. Morrer não é soffrer, é renascer. Eu é que preciso de viver para chorar. Renasce tu para as auroras da tua patria ou foge dos espinhaes do meu caminho que rasgariam de certo as tuas azas. Como havias de restituil-as depois ao Senhor que t’as deu?»


Uma noite, estava Eduardo Valladares escrevendo no seu livro intimo, quando sentiu alvoroço na sala proxima. Acudiu a saber o que era.

Frei Domingos, que se não tinha ainda retirado, approximou-se e disse-lhe:

—Animo, filho. Espero que pedirá ao Céo a coragem que precisa para lêr...