«Faze por ser humilde, e sujeita-te respeitoso aos conselhos das pessoas que t’os podem dar, nomeadamente á vontade de teu avô, em quem eu vejo, além d’um dedicado amigo, o pae de tua mãe. Não ponhas os olhos n’umas alturas em que o commum da humanidade fita a vista, se queres ser feliz. Se eu te posso servir d’espelho em alguma coisa, é no que toca a desambição e a serenidade d’espirito e de consciencia. Vivo tranquillo para os affectos da minha casa; se tu estivesses n’esta hora ao pé de mim e de tua mãe, julgar-me-hia em plena posse da verdadeira felicidade.
«Quando saio a nossa porta, sinto-me triste. É que entro no mundo, não no mundo em que vivo, mas no mundo em que vivem todos. Os olhares dos que vão passando, não me offendem por desdenhosos, mas incommodam-me porque não são doces e sinceros como os de tua mãe. Realmente não me sinto bem no meio da turbamulta.»
«A idéa da morte, se me entristece, é porque me faz lembrar que tenho de separar-me de tua mãe para sempre...»
N’este relanço levantara se anciado o bacharel para não mais se sentar á sua banca. Morreu como viveu: serenamente. Um momento d’agonia não se lhe afigurou decerto o resvalar para o tumulo, e não teve por isso tempo de sentir estalar os élos que o prendiam á felicidade. Encostou ao seio amigo a cabeça para descansar. Queria talvez adormecer... Cerrou os olhos e não accordou.
Rezaram-se os responsos de sepultura na egreja dos extinctos carmelitas do Porto. Antes de chegar o feretro, appareceu na sacristia um sacerdote que entrou, curvado de velhice, relanceando um olhar saudoso para um e outro lado.
Era Frei Domingos do Amor-Divino.
Durante os officios, foi notorio que o mais edoso dos padres não podia reprimir as lagrimas. Os raros amigos de Sebastião Valladares affirmavam não o ter visto uma unica vez em casa do bacharel. Correu porém voz de ser carmelita, e logo se explicou a razão de suas copiosas lagrimas, lançando-as á conta de saudades do hábito, evocadas pela entrada n’um templo da sua ordem.
Frei Domingos, depois de terminados os responsos, solicitou licença do sacristão para vêr o cadaver. Largo tempo o esteve contemplando com os olhos afogados, em lagrimas.
—Dizem que era um homem honrado, apostrophou o sacristão.
—Oiço dizer que sim, respondeu Frei Domingos. E, vendo-o, acredito que o foi.