—Pois... não eram amigos?
—Nunca lhe falei, nem sequer o vi.
—Deixou-lhe talvez alguma coisa? replicou o sacristão affeito a vêr copiosamente chorar nos enterros as pessoas contempladas com verbas testamentárias.
—Deixou-me... sincera pena de o não haver conhecido, respondeu Frei Domingos agradecendo e retirando-se.
Ás seis horas da manhã, entrava Frei Domingos na diligencia de Braga. Ninguem no Porto soube como se chamava e d’onde era. Os amigos do bacharel noticiaram a João Nicolau e a Eduardo Valladares que, na egreja, um dos sacerdotes, frade carmelita segundo se disse, estivera chorando a ponto da commoção lhe embargar a voz. Outrosim perguntaram se este frade era relação da casa, parente ou amigo. Eduardo Valladares deteve-se um momento a consultar a memoria e respondeu negativamente. João Nicolau, como porém tivesse ouvido falar em frade carmelita, sentiu se impressionado, e sem pensar que fosse elle, lembrou-se n’aquelle momento de Frei Domingos do Amor-Divino.
Quando o velho egresso voltou ao seu cubiculo da rua do Carvalhal, a trémula Gertrudes sahiu a recebel-o mais jubilosa que nunca.
—Ó sr. Frei Domingos, exclamou ella, como me disse que tinha de fazer jornada, sempre estava inquieta. V. s.ᵃ já não está muito para andar pelos caminhos!
—Ó boa mulher! com o auxilio de Deus vae-se bem para toda a parte. Mal sabe a sr.ᵃ Gertrudes d’onde eu venho. Pois oiça lá: fui ao Porto.
—Ao Porto! acudiu admirada a velhinha.
—Ao Porto, sim. E olhe que me não succedeu mal nenhum. Jornadeei em diligencia pela primeira vez na minha vida. E sempre lhe direi que isto de diligencias não foi a peor cousa que o progresso nos trouxe.