Devorado pela curiosidade, insisti:

—Era talvez sua parenta?

—Qual! disse elle surprehendido. Era a mulher do meu chefe![{218}]

Fiquei a olhar para elle, aturdido, assombrado. Ó lealdade da velha burocracia portugueza! que, em homenagem á disciplina social, desviava os olhos para não vêr o pé da mulher a quem o chefe havia dado a mão! E tive tentações de o abraçar, em plena rua do Oiro, exclamando: «Honradissimo José do Egypto, cujos olhos largam a capa, quando a mulher do chefe da repartição expõe o pé á vista do publico! eu te admiro e te venero!»

Acompanhando-o pela rua do Oiro adiante, baralhavam-se-me no espirito casos que eu tinha ouvido contar, por mais de uma vez, de empregados publicos que captavam as boas graças dos chefes seguindo o processo opposto ao do Seabra.

Admiravel homem! pensava eu, que penteia as suas farripas para ir vêr as mulheres e que, não obstante querer vêl-as, não perde nunca de vista um conselheiro, para lhe cumprimentar a carta de conselho, nem a mulher do chefe, para evitar cumprimentar-lhe o pé!

Uma coisa que entristeceu muito o Seabra foi o ir perdendo a vista, e com ella o gosto de passar na rua do Oiro.

Mas, não obstante, não largou nunca o seu espelhinho. Tinha o mesmo cuidado em alisar as farripas e escovar a sobrecasaca. Sómente mudou de caminho, tomava pela rua da Prata, em vez de seguir pela rua do Oiro.[{219}]

Os seus collegas diziam:

—O Seabra agora está muito caido!