Vem já ahi caminhando ao nosso encontro a bella festa do Natal. Não tarda nada. Os batedores, a guarda avançada, chegaram com a sua costumada pontualidade. Cá temos o frio e o perú passeiando ambos pelas ruas de Lisboa, um muito afiado e cortante, o outro gluglujante e luzidio.
Esta solemne festa do anno tem o condão de sorrir a todas as idades, de lisonjear todos os paladares, de encantar todas as imaginações.
As creanças pensam, cheias de jubilo, no seu Presepio, na sua arvore do Natal, na bonecada e nos bolos.
Os namorados estão já arregalando o olho amoroso para a missa do Gallo, que é boa capa para entrevistas hombro a hombro, de mãos dadas, emquanto se finge rezar muito devotamente...[{222}]
Os velhos, que são ordinariamente gulosos, começam a afinar o olfacto para descobrir, nas lojas de confeiteiro, os mais saborosos petiscos.
Os ambiciosos de qualquer idade e sexo sonham com a grande loteria de Madrid, esse ideial de felicidade que todos os annos lhes faz negaças á imaginação fogosamente credula.
As beatas estão já antegostando a delicia de oscular mysticamente as carnes rosadas e divinas do pequenino Jesus.
No meio de todo este côro de alegrias só uma nota discordante poderia soar, mas o perú, a principal victima do Natal, não tem decerto a consciencia do perigo que a esta hora está correndo,—felizmente para elle.
Pobre perú! Ahi o vemos fazendo descuidosamente a sua ultima avenida, dando o seu ultimo passeio de condemnado á morte, sem pensar em disposições testamentarias, tão felizes são os perús!
As pessoas do norte do paiz não teem, como o lisboeta, a tradição do perú do Natal. No Minho, na Beira, em Traz-os-Montes pensa-se agora em mil guloseimas, que não tardarão a encher de aromas a cosinha e a mesa, mas o perú setemptrional não tem que receiar-se da faca do cosinheiro, porque a tradição local não exige como victima senão a gallinha gorda e o gallo nedio.[{223}]