Eis aqui a rasão por que um rapaz da Ponte da Barca, que, ha annos, andava estudando em Lisboa, ficou muito surprehendido com o pedido que lhe fizera a mais astuciosa das suas namoradas lisboetas.
Ella era filha de um servente de repartição, creio eu, que vivia cheio de difficuldades, porque a mulher lhe havia dado uma prole numerosa: tres filhas e quatro filhos.
Emquanto todos os sete foram pequenos, era com profunda tristeza que o marido e a mulher viam passar na rua, pelo tempo do Natal, os bandos de perús luzidios e gluglujantes. Não podiam chegar-lhes, elles! Dez tostões não era quantia que um servente de repartição, cheio de filharada, podesse dispender. Isto ralava-o. Mas o pobre homem dizia muitas vezes á mulher:
—Deixa crescer a raparigada, e verás que não nos faltarão perús.
A mulher sorria com desalento e replicava:
—Pensas talvez que estão á espera d'ellas tres principes muito ricos, que hão de ser nossos genros?!
—Não é isso. Eu cá tenho a minha ideia. Deixa crescer a raparigada, e verás.
Os annos foram passando, e as tres filhas do servente cresceram, principiaram a revelar um palminho de cara menos mau. A mais nova tinha quinze annos; a mais velha dezesete.[{224}]
—E então os tres principes do Perú? perguntava a mulher ao marido, fazendo um calembour inconscientemente.
—É agora. Vae começar este anno, cá pelo que eu tenho observado. Elles ahi estão a bater á porta...