—Os principes?
—Não, os perús.
—Fia-te n'essa, pateta!
—Ora dize-me uma coisa: Teem ou não teem já as raparigas o seu derriço?
—Sim... acho que teem. E d'ahi, homem?
—D'ahi, tem paciencia, e espera. Eu logo vou conversar com as raparigas, porque todo o bom pai precisa aconselhar ajuizadamente as suas filhas.
O Natal estava por um fio, chega não chega. Fazia frio e luar. O estudante da Ponte da Barca não fôra a ferias, porque n'aquelle tempo ainda o caminho de ferro não tinha encurtado as distancias.
O rapazote, achando-se sem obrigações escolares, principiou a entregar-se exclusivamente á cultura de namoros desde pela manhã até á noite.
Ora ia vêr uma das suas bellas, ora ia catrapiscar a outra, mas a filha do servente, a dos quinze annos, era de todas as namoradas a que mais o prendia talvez, não só por esse orgulho natural de ter inspirado um primeiro[{225}] amor, como tambem porque o estudantelho era poeta e a rapariga parecia-lhe romantica.
Romantica, sim, senhor! Onde fôra ella aprender isso? Quem o podéra dizer! Foi uma qualidade que derivou talvez do fluido magnetico dos seus olhos negros e grandes. O pae era tudo o que podia haver de mais prosa em servente de repartição. A mãe era digna esposa de seu marido segundo os canones e a prosa. As irmãs só desejavam poder um dia comer bem e dormir melhor. Mas a rapariguinha dos quinze annos tinha suas reveries, contemplava o azul do céu, gostava de vêr o luar, o que o pae e a mãe muito extranhavam classificando de telhuda a filha mais nova.