II
A comedia das praias
De manhã cedo, na praia, todos parecem ter ainda o olhar vidrado, estupido, de quem acaba de accordar.
Olham uns para os outros com certa surpreza spasmodica, achando-se feios.
Defeitos que durante o dia chegam a passar despercebidos, avultam: foi n'uma praia que eu descobri que certa dama, aliás formosa, tinha uma orelha maior que a outra... de manhã!
Dar-se-ia o caso que, depois de feita a toilette, a orelha mais pequena crescesse ou a maior diminuisse?
Certamente que não. Mas diante do espelho, com vagar, um geito dado ao cabello, artisticamente, encobria o defeito da orelha. O ferro de frisar salvava a situação: a madeixa, que elle fazia descer, salvava a orelha, que a natureza fizera subir.[{12}]
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Em questões de toilette, o meio termo não é admissivel: ou tudo ou nada. Ou a toilette esplendida ou... a estatua. Eva, depois do peccado original, faz-nos rir vestida de folhas de figueira. Ora o fato de banho é o meio termo: a folha de figueira. Para vestir... é pouco; para despir... é muito.
Ha porém uma coisa peior do que vestir um fato de banho: é querer sophismal-o.