Reprehendia-os amoravelmente quando elles praticavam desatinos.
Mas qual! Ninguem o acreditava, ninguem o attendia, todos os outros haviam apanhado a chuva terrivel, todos estavam loucos, e procurar restabelecel-os de um momento para o outro era o mesmo que remar contra a maré.
Começou o sabio a inquietar-se com a sua propria situação, que em verdade nada tinha de agradavel.
Receiava elle proprio perder o juizo, que tão preciso lhe era, como se estivesse vivendo no meio de um hospital de doidos.
A sua criada desatava a cantar e bailar quando elle lhe mandava fazer o biffe do almoço ou as torradas para o chá.
De sorte que se via na necessidade de ir elle mesmo fazer o biffe ou as torradas, emquanto a criada bailava e cantava em frente do fogão, azoinando o amo.
O seu criado engraixava-lhe a camisa engommada, quando elle lhe mandava engraixar as botas, e escovava-lhe as botas, quando elle lhe mandava tirar da gaveta uma camisa engommada.
Pensou o sabio em mudar de terra, mas a pequena propriedade que possuia estava situada ali; e em taes circumstancias ninguem lh'a[{67}] queria comprar, porque o caso da chuva tinha soado ao longe, de maneira que a terra cahira em descredito, sabia-se que todos lá estavam doidos.
Os proprios trabalhos scientificos do sabio, até ahi tão considerados, principiaram a ser suspeitos de loucura. Já não havia quem os quizesse lêr. A opinião publica é assim. Até então, como corresse fama de que era aquelle um grande sabio, toda a gente o considerava como tal; de repente, com a mesma unanimidade, toda a gente principiou a duvidar de que elle podesse conservar inteiro o juizo vivendo no meio de doidos.
—O que hei de eu fazer? perguntava a si mesmo o sabio.