Como ainda houvesse pelas ruas da villa muitas pôças de agua da chuva, começou a analysar chimicamente a agua para vêr se descobria o segredo daquella extranha epidemia de loucura.

Mas nada lhe achou de notavel segundo a chimica. Era agua de chuva como qualquer outra.

—Eu perco o juizo! dizia de si para comsigo o sabio. Tudo isto é tão extraordinario, que sinto vacillar a minha propria razão!

E a criada continuava a bailar e a dançar quando elle lhe mandava fazer o biffe ou as torradas.[{68}]

E o criado engraixava-lhe a camisa quando elle lhe mandava engraixar as botas.

Os seus caseiros não se entendiam com elle, nem elle com os seus caseiros.

O padeiro, pela manhã, trazia-lhe pedras duras em vez de pão fresco.

O merceeiro mandava-lhe assucar quando elle pedia arroz ou mandava-lhe arroz quando elle lhe pedia assucar.

De modo que, n'um momento de desespero, o sabio resolveu um bello dia perder o juizo que até então havia conservado.

Fugiu para o meio da rua, andou procurando uma das pôças de agua da chuva, que ainda havia. Poz-se de cócoras, olhou em roda, e reconhecendo mais uma vez que todos estavam doidos, metteu as mãos na pôça, encheu-as de agua, e começou a encharcar a cabeça.