D'ahi a momentos estava tambem doido, e toda a sua preoccupação anterior havia desapparecido, porque, tendo elle proprio perdido a razão, já não se affligia com a loucura dos outros.
Lembrou-me esta anecdota quando, passando sabbado á noite pelo Colyseu dos Recreios, vi uma enorme multidão de povo invadir as portas, disputar a entrada, ancioso de obter um logar para ir assistir ao beneficio da Geraldine.
—Então, dizia eu com os meus botões, tudo[{69}] isso de reducções imminentes é uma fabula! O paiz está rico e contente. Diz-se que ha miseria, e toda a gente pensa em divertir-se! O que se vê é que as industrias estão prosperas, o commercio florescente. Os operarios, voltando agora de um trabalho fartamente remunerado, tratam de comprar bilhete para a geral. Vender uma colonia! para que? O que o povo quer é que lhe vendam um bilhete do Colyseu! Os jornaes portuguezes e extrangeiros dizem que estamos pobres! Sempre mentem muito os jornaes! Toda essa gente, que ahi se agglomera ás portas, estende para o camaroteiro uma nota, offerece-lhe dinheiro, tão rica está toda a gente!
E, pensando n'isto e na anecdota, continuei a dizer com os meus botões:
—... Salvo se o ultimo portuguez que tivesse juizo tambem molhou a cabeça na pôça d'agua!
Mas no domingo fui passeiar á Avenida como para procurar a contra-prova do espectaculo da vespera.
Oh! que alluvião de gente! que bulicio! que vida! que animação!
Longas filas de trens desdobravam-se ao longo da Avenida n'um grande esplendor de equipagens brilhantes.
O dinheiro trotava em bellos cavallos pur sang; rodavam titulos e brazões, fortunas colossaes[{70}] deslisavam a quatro soltas, pomposamente.
E eu continuava perguntando aos meus botões: