—Santo Deus! onde é que está o ultimo sabio d'esta terra?!
E olhava para o chão esperando vêr que o ultimo sabio, posto de cócoras, estivesse olhando para os outros e molhando a cabeça com frenesi.
Qual! não era para o chão que eu devia olhar.
Os sabios portuguezes prezam-se muito para que algum d'elles queira acocorar-se á vista dos seus patricios.
Era para o alto das boleias e para a estampa das horsas que eu devia olhar; não para o chão. O chão! esse, coitado, estava pisado, moido do continuo attricto das ferraduras dos cavallos e das rodas das carruagens.
O sol, bellamente festivo, cahia em palpitações de luz sobre a Avenida. O monumento victorioso dos Restauradores recortava-se n'um fundo de azul luminoso parecendo chispar centelhas como uma lamina erguida ao sol. Chalets elegantes alcandoravam-se pela encosta oriental da cidade. Predios magnificos, alguns sumptuosos, agrupavam-se em grandes bairros novos á ilharga da Avenida nas terras outr'ora desertas e solitarias. As antigas hortas desappareceram para dar logar a palacios novos. Guardas-portões[{71}] imponentes encostavam-se ás portas vendo de longe o formigueiro dos trens que passavam rodando ao trote largo de cavallos finos.
E por mais que eu olhasse para o chão nenhum sabio, de cócoras, tratava de molhar a cabeça para não ter que chorar sobre tanta alegria!
Então, recolhendo para casa, olhando sempre cautelosamente para não ser atropellado pelos trens e pelos cavalleiros, lembrou-me outro caso, nada mais e nada menos que o plano de um poema que certo amigo meu havia delineado quando a morte o surprehendêra.
A Valsa: era o titulo do poema.
A acção leva pouco tempo a contar.