Ter ou não ter mascotte, eis a questão, para tudo e para todos.
Não sei se o leitor é dado a superstições e crendices, que, de resto, constituem o fundo simples e primitivo da natureza humana.
Eu, por mais que oiça dissertar os philosophos, creio profundamente em superstições. Sou, a este respeito, quasi primitivo. E entre as superstições, que me inspiram maior fé, acredito cegamente na influencia benefica de um genio bom e tutellar, a que modernamente chamamos mascotte.
Até—seja dito em confidencia—já tive uma mascotte.
Por que não hei de contar francamente essa historia?
Era uma insignificantissima bengala da ilha da Madeira, que me tinha custado doze vintens[{74}] e que ninguem seria capaz de me comprar por seis.
Estava muito longe do meu espirito a suspeita de que essa reles bengala, cheia de nós e de mossas, podesse exercer alguma influencia benefica na minha vida.
Mas comecei a notar a coincidencia de que tudo me corria mal, quando o mau tempo me obrigava a substituir a bengala pelo chapeu de chuva.
Difficuldades, incertezas, contrariedades que o chapeu de chuva tinha suscitado e alimentado, aplanavam-se e desappareciam quando no dia seguinte a bengala substituia o chapeu de chuva.
Este facto repetiu-se uma e muitas vezes: induzi portanto que aquelle reles pausinho da ilha da Madeira tinha condão de felicidade. Era o meu talisman. Tomei-lhe amor, ganhei confiança na sua virtude, e comecei a acreditar na existencia de uma mascotte que, se me abandonava um momento, me deixava exposto ás maiores contrariedades.