Em dias de chuva torrencial, dias de temporal desfeito, eu não ousava sahir sem a mascotte, importando-me pouco que as outras pessoas podessem fazer reparo na excentricidade de um homem que, apesar de chover a potes, deixava o chapeu de chuva em casa e sahia com a bengala debaixo do braço.[{75}]
Muitas vezes fui obrigado, por manter o culto devido á minha mascotte, a tomar um trem.
Mas fazia de bom grado essa despeza, nem me importava apanhar chuva, comtanto que não tivesse de largar a mascotte.
Os meus amigos conheciam esta superstição, e riam-se. Fingiam querer roubar-m'a. Mas eu, se passava a noite com elles, sentava-me de bengala na mão, não a abandonava um momento.
Um dia perdi-a. Vou contar como isso foi. O leitor póde imaginar o desgosto que n'esse dia me feriu.
Era então ministro da marinha o conselheiro Julio de Vilhena, que morava na rua de S. João da Matta.
Na vespera haviamos passado grande parte da noite a conversar sobre um livro, que se relacionava com o assumpto litterario de que eu então me estava occupando.
Tratava-se da symbolica do direito, que me era preciso estudar para o livro A jornada dos seculos, que eu trazia entre mãos. Julio de Vilhena offerecêra emprestar-m'o, e ficou combinado que eu iria no dia seguinte a sua casa, á uma hora da tarde, buscar o livro.
Chovia: tomei um trem.
Durante o trajecto, para accender um cigarro, tive que encostar a bengala a um canto da carruagem.[{76}]