«Devo ajuizar da minha precoce sensibilidade, recordando que, dous mezes antes, entrei, por noite alta, na sala onde meu pai estava amortalhado, sem mais companhia que quatro cirios de chamma azulada. Ajoelhei sem orar. Afastei da fronte do cadaver o capuz do habito, e beijei-lh'a. Puz tambem a bocca nas mãos glaciaes; senti um frio de que ainda o coração me guarda a memoria: o frio do ambiente dos mortos. A meu lado, ninguem. A irmã que eu tinha, alguns annos mais velha, encerrara-se com a sua dôr e{43} com o seu terror de cadaveres. E eu estava alli, destemeroso das sombras que desciam dos angulos do tecto á penumbra do clarão oscillatorio das tochas.»
Camillo Castello-Branco trabalha como trabalhava Mozart,—para vencer as rebeldias do seu temperamento. O trabalho é, para elle, ao mesmo tempo, toxico e remedio.
D'aqui o numero prodigioso das suas obras. N'estes ultimos tempos teem-se aggravado os padecimentos habituaes de Camillo Castello-Branco. Mas ainda assim que prodigiosa fecundidade a sua!
Ha um anno tem publicado quatro livros, e já estão traçados tres novos romances que são Celestina, Scenas da tragedia humana e Infanta capellista.
É condão dos homens de letras o desentranharem-se em flôres do espirito quando o corpo mais se nega por enfermiço. Assim foi tambem Garrett, que já em 20 de setembro de 1838 escrevia para o Porto, a seu irmão:
«Ha muito que devo resposta á tua de 13 de agosto e terás attribuido a demora talvez a outros motivos, sendo unicamente que não tenho saude para nada, e que o escrever sobre tudo me mata. Não tanto em cousas de meu gosto, e em correspondencias com os meus amigos,—mas tendo de roubar aos padecimentos corporaes e amofinações d'espirito os proprios momentos que a natureza exhausta pedia para socego,—fico incapaz até para o que aliás me daria gosto e ainda allivio.»{44}
Era-lhe rebelde a saude, fatigava-o o escrever, e aquelle grande espirito estava sempre moço, sempre acordado, e publicava, depois da data d'esta carta, o Frei Luiz de Sousa em 1844; em 1845 as Flores sem fructo e o Arco de Sant'Anna; em 1846 a Philippa de Vilhena e as Viagens na minha terra; em 1848 a Sobrinha do marquez e, para dizer tudo, foi depois de 1838 que nos deu os mais delicados livros da sua gentil bibliotheca.
Camillo Castello-Branco sente-se tambem doente, e ainda assim vou jurar que renunciaria á vida se o privassem de escrever os seus romances admiraveis de verdade, de analyse, de côr local, o que é, a meu vêr, um dos quilates mais preciosos do seu talento.
Lê-o a gente, e acredita-o, e commove-se por mais que se lembre que está lendo uma novella.
O segredo d'este prodigio ha-de morrer com Camillo Castello-Branco. Só elle sabe temperar a verdade com a ficção de modo que não offenda, por falta de naturalidade, os mais exquisitos paladares. É que a verdade, como sabem, nem sempre é verosimil.