Ouçamol-o a este proposito:
«Um meu amigo, que tinha conhecido muitos amigos infelizes, e tinha lido as minhas novellas, disse-me assim uma vez:
«—Tenho observado que vossê inculca verdadeiras todas as suas historias.
«—E vossê duvída?
«—Duvido porque as acho verosimeis de mais.{45}
«—Isso é um absurdo, com o devido respeito. Pois, se as minhas historias fossem impossiveis, seriam mais possiveis?
«—A pergunta formulada d'esse modo é irrespondivel; mas o que eu queria dizer não é o que vossê entendeu.
«—Faça favor de se explicar.
«—Lá vou. A verdade é ás vezes mais inverosimil que a ficção. O engenho do romancista concatena os successos com tanta logica e coherencia que o espirito não póde negar-lhes a naturalidade. As occorrencias advem tão harmoniosas, os successos filiam-se e reproduzem-se tão espontaneamente, que o leitor póde, sem desaire da sua critica, pensar que o romancista é muitissimo mais correcto que a natureza. Ora agora, o modo como as cousas reaes se passam, os disparates que a gente observa, o desconcerto em que anda a previdencia do homem com o resultado phenomenico e sempre ordinario das realidades, isso, meu amigo, é o que os torna inverosimeis e inacreditaveis, se vossê ou eu as contarmos com a simplicidade e nudez de que ellas se vestiram aos nossos olhos. Sei eu acontecimentos que relatados, como eu os presenciei, seriam incriveis, e compostos com a mentira da arte seriam as delicias do leitor, que julga só verdadeiro o que é possivel ter acontecido. D'onde eu concluo que a arte é muito mais verosimil que a natureza, e que os seus romances são inacreditaveis por isso que são verosimeis.»{46}
É este inquestionavelmente o grande segredo dos romances de Camillo Castello-Branco, o serem muitas vezes, para não dizer quasi sempre, mais verosimeis que a verdade.