Avistava-se o mar, de um azul lacteo, esbranquiçado e sereno.
Fomos subindo: a egua, de cabeça baixa, mettia o largo peito á estrada, puxando a charrette. Já conhecia o caminho, e acho que até já conhecia a Libania.
Chegámos. As creancitas choravam como se tivesse acontecido uma desgraça. Havia algum caso na Murgeira.
—Ora esta! exclamava o tenente. É a primeira vez que vejo chorar n'esta terra!
—Ainda que tarde, as lagrimas chegam sempre, observei eu.
—Isso é sentencioso. Mas eu sou curioso: quero saber o que é.{160}
O tenente apeou-se; eu apeei-me tambem. Na taverna do sitio falava-se muito. Falava-se muito, e não se chorava menos.
Soubemos então o que se tinha passado; morrera o Zé Ratinho.
—Quem era? perguntei.
Deram-nos informações. Zé Ratinho era um rapaz da Murgeira, que se fizera cocheiro dos Gatos. Andára doze annos em Lisboa, batendo, e aprendêra lá a tocar guitarra. Por esta prenda foi que elle se tornou celebre desde Lisboa até Mafra, desde Mafra até á Murgeira. Nas esperas de toiros, nas patuscadas de Friellas e nas noitadas do Dáfundo, Zé Ratinho fazia as delicias dos marialvas e das hespanholas: era um artista para a guitarra.