Fôra em Lisboa que elle ganhára queixa de peito, disseram-nos. Viera muito doente para a Murgeira, tomar ares patrios. Apesar de doente, entretinha-se á noite com a guitarra, na taverna, tocando para os outros ouvir. Os saloios da Murgeira, seus patricios, consideravam-n'o um Orpheu, um Amphion da guitarra. D'aqui o sentimento geral pela morte d'esse excellente rapaz, que deixava a perder de vista os harmonios da saloiada patusca.

Todos, rapazes e raparigas, queriam velar o seu cadaver. Tinha funeraes de principe, o Zé Ratinho.

—Acabou-se a guitarra na Murgeira! exclamou{161} um saloio, que acabava de beber dois decilitros saudosamente.

—Vão os senhores lá ver, que elle está catita! exclamou o taverneiro.

Fomos. Casa terrea, pequena, escura: cheia de gente. Quando entrámos, a chorata dos circumstantes augmentou. Depois foi-se smorzando lentamente: queriam ouvir o que diriamos.

Zé Ratinho estava deitado no caixão. Tinham-lhe vestido o seu melhor fato: calças de bombazina, jaqueta de briche, cinta de lã encarnada, botas de pelle de vacca com floreta. Sem gravata. O barrete pousado sobre o hombro direito.

Á cabeceira, um Christo e duas velas de cêra.

Pendurada n'uma trave, n'uma tristeza inconsolavel, a guitarra.

Uma rapariga, que diziam lá fóra sua namorada, havia entalado nas cordas da guitarra uma dhalia branca.

O tenente Silverio conheceu que tinha mallogrado o passeio. O luto geral abrangia a Libania, cujos olhos chorosos contrastavam com os peitos foliões, saltitantes.