—Juro.

—Então, decididamente, não era a alma do Zé Ratinho. Ainda bem! porque eu já me sentia disposto a acreditar...

—Tambem eu, se isso tivesse acontecido comigo! observou ingenuamente o brazileiro.

D. Christina, espirito forte, desatou a rir, e como já estivessem sobre a mesa dois baralhos de cartas, foi ella propria que os abriu, dizendo e abancando:

—Vamos a isto, meus senhores.{165}

XVII

Leotte arrastava discretamente a aza a D. Christina, mas enganára-se quanto á presumpção de, como César, chegar, ver e vencer.

Teve de conhecer que madame Araujo, muito experimentada no terreno que pisava, não quereria comprometter-se no pequeno theatro de acção de um hotel, onde o marido só a largava por instantes e onde nós, os oito companheiros de Leotte, eramos outros tantos olheiros, cheios de malicia e curiosidade. De mais a mais, entre esses oito havia um que lhe conhecia a vida. Era eu. E ella estava de certo empenhada em fazer-me convencer a mim proprio, como tinha convencido o brazileiro, de que era a viuva authentica e duplicada do morgado Muxagata e do Falcão do Marco.

Portanto, o Leotte, que não era tambem um{166} novato inexperiente, resolveu rallentar o galanteio, appellando para Lisboa. Por esta razão e, certamente espicaçado pela minha feliz descoberta, voltou-se de novo para a criada, não só por amor das cerejas apetitosas, como pelo desejo de ver se deslindava o misterio, que fôra o primeiro a suspeitar.

E agora é chegado o lance capital d'esta novella, que talvez pareça inverosimil como um antigo romance de Ponson, mas que é tão verdadeira, que ainda hoje póde ser testemunhada por mais de meia duzia de pessoas.