Assim foi resolvido por unanimidade... menos um. Era o Leotte, que foi á cozinha recommendar que lhe puzessem lamparina no quarto: pretexto para ver as criadas do Victor.{24}
—Vamos lá ao conto, ordenou o Vasconcellos: o Muxagata estava na feira.
—Estava effectivamente na feira, continuei, jogatinando com outros morgados e alguns lavradores ricos de Castello de Paiva e Arouca, n'uma casa humilde do Escamarão, que não as ha lá melhores.
Como o jogo nivella todas as condições, os nobres e os ricaços abancavam em familiar camaradagem, como se a uns valesse o direito do nascimento, e a outros o do ouro. As mãos de todos elles eram grandes e queimadas do sol ou do cigarro. Lembrei-me, de repente, das mãos finas e brancas de D. Christina, polvilhadas de pó de arroz. Que falta que ellas faziam ali, as mãos de Christina, para brilharem pelo contraste no meio d'aquelle enorme conflicto de manapulas de granadeiros, que ora se estendiam semeando dinheiro, ora se retraíam recolhendo-o!
E pelo meu espirito passou a idéa de que o Muxagata nem por sombras se lembrava, n'aquelle momento, das mãos patriciamente batoteiras da sua bem amada de Lamego.
Fui injusto.
Uma hora depois, Muxagata punha ponto no berlote. Levantava-se da banca, que por tal signal era de pinho, ganhando cerca de setenta libras. Varios lavradores e outros morgados haviam perdido o valor das suas juntas de bois e das suas varas de porcos. Quasi todos elles, os{25} morgados e os lavradores, estavam congestionados das repetidas commoções do jogo. Mas o sorriso triumphal dos felizes principiava a calmar-lhes as feições perturbadas. O Muxagata estava n'este caso. Irradiava-lhe na face o lampejo aureo de setenta libras.
Foi depois de acabada a jogatina que elle me deu maior attenção. Perguntou-me se me demorava na feira ou se recolhia á noite. Disse-lhe que, a meu pesar, partia duas horas depois para o Porto, por causa das matriculas.
—O que?! exclamou elle. Você vae para o Porto?!
Os seus olhos accusavam uma certa satisfação, que esta noticia lhe causára.