Respondi affirmativamente.

—Muito bem. N'esse caso ha de fazer-me um favor: levar quarenta libras á D. Christina, que, coitada! deve estar muito precisada de dinheiro. Mas, meu rapaz, pontualidade de cavalheiro: as quarenta libras serão entregues logo que você chegue ao Porto. E em tom de maior confidencia: Eu suspeito até que ella e a pequena (referia-se a uma filhinha de dois annos) não terão tido que comer.

Esta revelação causou-me triste surprêsa: caiu como um raio fulminador sobre as roseas illusões que eu nutria relativamente ao romance dos raptos.

Pois que?! pensei. É então para não ter talvez que jantar que uma mulher, bem nascida e formosa, abandona o seu farto lar paterno, perdendo{26} todo o direito á estima da familia e ao respeito da sociedade?! Os poetas d'aquelle tempo costumavam dizer:—«O teu amor e uma cabana». Mas a realidade parecia ir muito mais longe do que os poetas, porque, comquanto a casa das Fontainhas não fosse propriamente uma cabana, o que era certo, pela inesperada revelação do Muxagata, era que não havia lá que comer! E depois se eu não tivesse apparecido ali n'aquelle dia e n'aquella hora, D. Christina e a filha ver-se-iam condemnadas a soffrer por mais algum tempo ainda as suas duras privações?! E o esplendor da casa das Fontainhas, os criados de casaca e lenço branco, os cavallos do passeio até á Foz, as joias e as rendas de D. Christina era tudo isso a mascara ficticia da pobreza, o ouropel postiço da ruina, que esperava os acasos felizes da batota para ter pão na mesa e pó de arroz nas mãos?!

Eu estava assombrado por todos estes pensamentos que em tropel se precipitavam no meu espirito, e não sabia se devia rir-me da comedia do mundo, se chorar das desgraças e dos raptos alheios.

Á hora marcada, o barco rabello do Ramiro descia mansamente o Douro e abicava ao areio do Escamarão. Alfredo Leão fazia as suas despedidas. Eu recebia as quarenta libras do Muxagata, e saltava para dentro do barco. Momentos depois o lenho da espadella rangia, os remos chiavam{27} na madeira secca das cavidades que n'aquella especie de barcos substituem as forquilhas, e nós desciamos o Douro deslisando sobre a grande serenidade das aguas, que montanhas áridas e alcantiladas marginavam silenciosamente.

Impressionou-me o contraste d'essa placidez austera com a realidade turbulenta das paixões humanas.

E quando a noite começou a cair dos cerros alterosos, que rara casa branca povoava, eu tinha envelhecido moralmente vinte annos.

Chegamos ao Porto cerca da meia noite. Desembarcamos no caes da Ribeira, que nunca me pareceu mais triste do que n'essa hora. Subimos os dois a rua de S. João, entramos na rua das Flores, ambos muito solitarios, mas ao chegarmos ao largo da Feira de S. Bento encontramos dois estudantes do lyceu que, tendo andado á tuna, se dirigiam viciosamente para a batota do D. Marcos em Cima de Villa. Convidaram-nos a seguirmol-os. Eu alleguei que tinha de ir á rua das Fontainhas entregar o dinheiro a D. Christina.

Responderam-me que áquella hora já D. Christina estaria, como todas as mulheres, raptadas ou não, dormindo profundamente n'um poço de virtude.