Que embora, respondi. Iria bater á porta para lhe levar o ouro da perdição.
Pois sim, que fosse, mas que não me custava nada passar cinco minutos pela batota do D. Marcos.{28}
Fomos. Do dinheiro que eu tinha para despêsa de matriculas, livros e hospedagem, perdi quatro mil réis instantaneamente. Fiquei sobreexcitado com a perda; sedento de desforra. Tive, confesso-o, o pensamento de ir jogando todo o dinheiro que trazia até abrir brecha na banca. Queria uma vingança formidavel. Mas quando eu estava n'esta tortura, hesitante entre a febre e a honra, um braço invisivel, fosse o pulso do anjo da guarda ou o impulso da consciencia, como que me arrastou para fóra, não sem que os pés se me pegassem ao soalho.
Nunca me custou tanto ser homem de bem.
Corri á rua das Fontainhas. Surprehendeu-me vêr luz na escada e nas janellas. E dizerem os outros que D. Christina dormiria áquella hora como um poço de virtude! Bati. Um criado de casaca e lenço branco, o Miguel, veio abrir.
Que sim, que a senhora estava a pé, ceando, e que tambem lá estava o sr. Antonio Falcão, do Marco.
Embuchei. Pois a indigencia que o Muxagata me havia annunciado refestelava-se, depois da meia noite, n'uma ceia a dois, servida pelo Miguel de casaca e lenço branco?!
Pois as consequencias deploraveis do rapto, o quadro negro da fóme transmudavam-se n'essa orgia de bacchante perdularia, em que o Antonio Falcão do Marco era conviva suspeito?!
E emquanto subia as escadas envelheci moralmente outros vinte annos.{29}
A mesa da ceia resplandecia de loiças e cristaes. As joias de D. Christina não resplandeciam menos do que os cristaes e as loiças. E ella propria, na sua belleza acirrante, resplandecia mais que tudo aquillo.