Disse-lhe eu que era portador de uma encommenda para ella. Não ousei, por uns restos de pudor, dizer que a encommenda eram quarenta libras. D. Christina perguntou quem mandava a encommenda. Esta pergunta foi a minha ultima surpresa. De quem poderia ella esperar encommendas depois da meia noite? Ri-me para dentro, não obstante parecer-me que a pergunta, sendo muito melindrosa para o Muxagata, não o deixava de ser tambem o seu tanto ou quanto para mim.
Que era o morgado quem mandava... aquillo.
D. Christina não levou a sua impudencia até ao ponto de perguntar qual morgado era esse. Entendeu ou fingiu entender que seria o Muxagata.
—Como está elle? perguntou.
Eu respondi com alguma atrapalhação, que parecia troça:
—Bom. Muito obrigado.
E, do lado, o Falcão do Marco:
—Esse diabo de homem já se não lembra de nós, nem da filha! Nunca vi uma cabeça assim! Em tendo cartas e pontos não quer saber de mais nada! Pois já tinha motivos para ter juizo! Nem uma carta tem escripto á D. Christina, que estaria{30} para aqui sósinha com a pequena, se não fosse eu!
Levantei-me, puz as quarenta libras, descaradamente, á borda da mesa, sobre a toalha.
—Ah! é dinheiro! disse D. Christina cortando esquirolas de marmellada.