—São quarenta libras, respondi.
—Pois então faça-me o favor de lhe mandar dizer que ficaram entregues.
—Perdão! repliquei com certa rudeza. A sr.ª D. Christina vae escrever isso mesmo n'um bocado de papel, que eu mandarei ao morgado.
—Sim... farei isso. Mas primeiro acompanhe-nos a cear.
Agradeci, rejeitando. Então D. Christina disse ao Miguel que lhe trouxesse papel e lapis. E escreveu em lettra de collegial:
Recebi as quarenta libras.
Tua do coração
Christina.
Mais nada.
Saí, e respirei com soffreguidão a brisa fresca do Douro, que soprava do Passeio das Fontainhas. Uma tenue nebrina emplumava as arvores que ladeiam a rua. E eu, de mãos nas algibeiras, entregava-me dolorosamente, calçada acima, a esta cruel philosophia: «Onde hei de ir arranjar os quatro mil réis que perdi?!»{31}