—Conheço o genero, conheço, mas, por isso mesmo, acho que ella fala mais verdade do que todas as outras que costumam impingir-nos o seu romance. Emfim, veremos. Deixem-me vocês em paz.

Á noite, no Victor, não houve duvidas sobre quem primeiro falaria. Pois que o Gonçallinho Jervis havia escripto já o seu segundo conto, como de manhã confessára, foi-lhe concedida a palavra, e, em verdade, outra coisa não desejava elle.

Ouvimos pois, no meio do silencio regulamentar, que o Vasconcellos não deixava interromper, a narrativa que o nosso bom Gonçallinho planeara na almofada do char-á-bancs ao lado do cocheiro. O que é o poder da imaginação juvenil! Foi ao lado de um cocheiro de praça, que naturalmente cheirava a aguardente e suor, que elle{71} phantasiou essa em verdade joiasinha litteraria, por elle proprio denominada A morte do bibliophilo.

—O bibliophilo Joseph, contou, era uma alma antiga, um espirito classico, que vivia no pó dos livros e no pó das ruinas.

Todo o mundo da sua actividade intellectual, concentrada e profunda, havia passado já, mas elle resuscitava-o, nas suas cogitações luminosas, tão vivo e tão perfeito, como se a idade-média, que de preferencia amava, fosse um ramo de flôres, de que pudesse sentir ainda o perfume longinquo.

Barbaros que invadiam a Europa, cavalleiros e trovadores, castellãs e pagens, guelfos e gibelinos, cruzados que partiam para a Terra Santa, burguezes que levantavam o grito da insurreição communal contra os senhores feudaes, exercitos que se despedaçavam n'uma guerra de cem annos ergendo os pendões da França e da Inglaterra, o imperio succumbindo perante o papado no parque do castello de Canossa, para resurgir depois triumphante na batalha de Volksheim; Roma desabando na sua grandeza moribunda, ao passo que as monarchias modernas palpitavam na primeira vibração da sua vitalidade autónoma, mares tenebrosos que se estavam offerecendo á quilha das primeiras naus descobridoras, como um terreno inculto ao dente fecundador da charrua, vagas revoltas de uma grande epopêa maritima,{72} que espumavam anciosas da apparição de um Gama dominador, tudo isso rolava no seu espirito, como no sonho de uma febre permanente, passando, agitando-se, baralhando-se tumultuariamente sobre a tela historica de dez seculos de civilisação medieval.

Em torno da sua alta cadeira de braços, a que estava sempre preso como Prometheu ao rochedo, longas filas silenciosas de canções de gesta e de novellas de cavallaria, in-folios de capas de pergaminho levemente rugoso, grossos volumes de encadernação tão dura como um arnez, formavam disciplinarmente, á espera que elle, com um simples volver de olhos, os chamasse á refrega de todos os dias, lhes désse a voz de commando, o grito de alarma.

Sorriam-lhe do alto da estante, como que constituindo a ala dos namorados n'aquelle exercito de livros, os poemas carlovingeos, cheios da poesia dos combates, como na Canção de Rolando, cheios de ingenuidade heroica, como na Canção do Figueiral; os poemas da Tavola-redonda em que o espirito cavalheiresco pairava, como a borboleta na indecisão de dois nectarios, entre a lenda do rei Arthur e a tradição do Santo Graal.

Depois galopavam para elle, mal que os chamasse com os olhos, os esquadrões interminaveis dos cavalleiros andantes, fazendo flammejar no ar a espada nua, desembainhada em honra{73} de uma dama, que á noite, nas côrtes de amor, emquanto dois trovadores se digladiassem improvisando tensões, lhes havia de dar n'um sorriso, feito de rosas e perolas, o premio da victoria.

Ah! como o bibliophilo Joseph amava tão de dentro, tanto do imo peito, esse galante mundo aventuroso que divinisava a mulher a ponto de que, derrubado o altar por Cervantes, toda a realidade da belleza parecia tão pallida como o reflexo do sol agonisante resvalando nas vidraças coloridas d'uma janella gothica.