Foi por isso que bibliophilo Joseph passára toda a sua vida sendo um celibatario sem familia, longe do calor absorvente das fundas affeições domesticas, na solidão sepulcral que só os livros povoavam.
Herdára de um velho tio todas as preciosidades bibliographicas que completavam o thesouro da sua bibiotheca. Abrira, por desfastio, o primeiro livro, como um operario insciente que experimenta a medo a engrenagem de uma machina. Impellido por uma especie de dever sagrado, que lhe era imposto pela posse de um legado querido e precioso, foi voltando pagina sobre pagina, mas, a meio da leitura, como o viajante que fica encantado de encontrar um bello paiz desconhecido, sentiu-se preso pelo interesse e pela curiosidade e, chegando á ultima pagina, reconheceu que, tendo penetrado n'um palacio maravilhoso, o seu espirito exigia d'elle que não parasse no vestibulo.{74}
Foi assim que a pouco e pouco devassou os segredos do passado fechados n'esses cofres de pergaminho, n'esses velhos codices poeirentos, que lhe deram a clara noção do cyclo cavalheiresco, em que a mulher, poetisada pela imaginação, perdia toda a mundanidade vulgar, para se exalçar pelo amor que a divinisava.
Purificados no crisol da idade-média, todos os sentimentos humanos pareciam nobilitar-se de uma peregrina fidalguia, de uma lealdade heroica, de uma abnegação sobrenatural, que nenhuma outra civilisação pudera reproduzir nem copiar integralmente.
Amadiz era para elle um symbolo epico da alma antiga.
Ferido em combate, mas fortalecido pelo seguro amor que Oriana lhe inspirara, elle havia recusado a mão de Briolanja porque, n'aquelles tempos de fé imperturbavel, o coração era feito de diamante para resistir aos golpes da tentação e para no seu proprio brilho conservar inalteravelmente lucida a imagem uma vez gravada.
Bibliophilo Joseph vivia absorvido como um rei excentrico na sua vasta côrte de livros, rodeado apenas de Amadizes e Palmeirins imaginarios, com os quaes praticava longas horas, ouvindo-os e respondendo-lhes, inquirindo do passado com uma devoção fanatica.
Um criado que o servia, o velho Leão, era a unica pessoa que podia entrar no recinto sagrado{75} da bibiotheca, mas tendo comprehendido intuitivamente a paixão dominante do amo, impuzera-se o dever de não a perturbar jámais.
Leão, de origem castelhana, havia passado na mocidade pela casa dos Medina-Sidonia, e tomára desde então um gesto de grave compostura, que não perdera nunca.
Vestindo todos os dias a sua casaca, atando a sua gravata branca, para servir o sabio, como o havia feito, na mocidade, para servir os Medina-Sidonia, Leão cumpria religiosamente o seu dever de grande escudeiro de uma côrte sem cortezãos.