Não dirigia nunca a palavra a seu amo se não para responder concisamente ás perguntas que elle lhe fazia. Entrava na bibliotheca sempre em bicos de pés, quando o amo lá estava, e muitas vezes, por já ter passado a hora do jantar, pousava ao de leve sobre a vasta escrivaninha de castanho, a que o bibliophilo se sentava, uma pequena bandeja contendo uma ligeira refeição, que o amo tomaria se quizesse. Leão retirava-se silenciosamente, deixando ao bibliophilo toda a plenitude do goso de jantar no meio dos seus livros com o Bimnarder da Menina e moça e com o Danteo da Diana de Montemayor.

O mais que Leão se permittia fazer, depois de ter deixado ficar a bandeja, era espreitar pela fechadura da porta, receoso de que o amo se houvesse esquecido de estender o braço para aproximar a refeição.{76}

Leão tinha uma grande dedicação antiga por aquelle homem cheio de sciencia e de virtude, que atravessava a existencia sem se contagiar das paixões mundanas, conservando intacto um coração de ouro e um espirito de luz.

Se via o amo ingerir á pressa a refeição, tranquillisava-se, e só voltava tempo depois a espreitar pela fechadura da porta para o vêr dar um pequeno passeio hygienico, enrijecendo as pernas, em roda da bibliotheca, como se andasse passeando n'um jardim, batendo os pés deante dos canteiros, parando a observar as etiquetas latinas das plantas.

O que bibliophilo Joseph examinava era a sua collecção preciosa de rosas bibliographicas, de raras tulipas litterarias. Demorava-se olhando a lombada dos quatro in-folios da Vita Christi; tirava da estante, para acarinhal-a, a Historia do mui nobre Vespasiano; fazia uma rapida visita ao Pentateuco hebraico e ao Almanach perpetuus, que eram proximos vizinhos; folheava, envolvendo-o n'um olhar em que gorgeavam beijos paternaes, o seu querido Boosco deleytuoso, que lhe exhalava nas mãos, como um lirio aberto, todo o perfume da antiguidade quinhentista.

Leão via o bibliophilo entregue a esse bom passeio hygienico, que tanto lhe deleitava o espirito, e acabava de tranquillisar-se pela saude de seu amo, que, muitas vezes, quando não alternava com a leitura o menor exercicio muscular, tinha{77} tido, ao levantar-se da cadeira, depois de longas horas de vida sedentaria, vertigens gastricas.

Quando a noite principiava a cair, Leão entrava com o enorme candieiro de tres bicos, cuja luz uma larga pantalha de latão afrouxava. Poisava-o sobre a escrivaninha, com o leve ruido de uma mosca que passasse, e ia accender, ao fundo da bibliotheca, o fogão de sala, fortemente chapeado de ferro, para não communicar calor ás paredes.

Cá fóra, na rua, principiavam, d'ahi a pouco, a rodar as carruagens que batiam para os theatros, para as festas frivolas da noite. Umas vezes por outras passavam fanfarras, folias populares, que iam para os clubs operarios improvisados ao ar livre. Outras vezes sentia-se o estrondo de bombas de incendio, que passavam, arrastadas vertiginosamente; e os sinos da cidade, alvoroçados, ouviam-se badalar, pedindo soccorro.

Mas nunca esse movimento exterior eccoava na habitação solitaria do bibliophilo de modo a perturbar a paz do seu espirito. Parecia que ao sol posto se tinha erguido a ponte levadiça de um castello, bem defendido por um cinto negro de ameias e de fossos.

Só excepcionalmente bibliophilo Joseph fozia soar a campainha para chamar o seu velho Leão.