Comprehende-se, pois, a angustia com que o{78} dedicado escudeiro ouviria uma noite dois toques de campainha consecutivos.

Correu á bibliotheca.

Bibliophilo Joseph, quando elle entrou, forcejava por levantar-se da sua alta cadeira de braços, mas as forças traíam-n'o, as pernas dobravam-se-lhe, e o sabio, muito pallido, encostou-se, vencido pela doença, sobre o espaldar.

Leão acudiu-lhe carinhosamente, levantou-o nos braços tremulos, foi depôl-o no leito, chorando.

O bibliophilo sentiu-lhe as lagrimas, colheu-lhe docemente a mão, abriu os olhos, demorou-os fitando-o, e disse-lhe:

—Não chames ninguem, que ámanhã estarei melhor.

Toda a noite o velho Leão velou junto ao leito de seu amo, que, levemente anciado, parecia de vez em quando, com os olhos abertos, querer fixar o pensamento n'um ponto vago, que lhe fugia.

Ao romper da manhã, Leão, sentindo um movimento nervoso do doente, interrogou-o.

Bibliophilo Joseph, com a face marmorisada n'uma pallidez terrena, disse-lhe abrindo um sorriso triste:

—Queria, meu velho amigo, que me realisasses um desejo.