Leão, pendido ao leito, o peito offegante, escutava reverente.{79}

—Que me amparasses com o teu carinho até á bibliotheca.

O velho criado levantou-o nos braços, envolto nas roupas do leito, e foi sental-o, entre almofadas, na alta cadeira de respaldo.

Um cansaço extremo parecia aniquilar o bibliophilo, ao passo que Leão sentia rijos os seus braços como se fôssem de ferro.

Com doloroso esforço, bibliophilo Joseph disse ao velho escudeiro, indicando-lhe uma estante:

—Traze d'ali o D. Quichote de Miguel Cervantes. Abre-o, e lê onde entenderes melhor.

Leão correu á estante, tirou o D. Quichote de la Mancha, e, aproximando-se da cadeira do amo, caiu de joelhos, com o livro aberto.

Lentamente, a voz embargada pelos soluços, começou a ler, e emquanto elle lia, o bibliophilo, cerrados os olhos, escutava cada vez mais anciado...

Foi assim que aquella alma cristallina, para quem a idade-média tinha sido uma delicia, exhalou o derradeiro suspiro, emquanto o velho Leão, sempre de joelhos, lia o D. Quichote de Cervantes,—o epitaphio eterno da idade-média.

Os applausos foram unanimes, postoque nem todos os ouvintes gostassem sinceramente d'esta especie de contos, a que o Vasconcellos, com maior ou menor propriedade, chamava phantasticos. Elle, por exemplo, preferia a escola realista: estava mais no seu genio, aliás pouco propenso a idealisações romanescas. Mas a verdade era que,{80} afastada a questão de assumpto, o Gonçallinho Jervis lográra dar á sua narrativa uma forma litteraria, que revelava um escriptor.