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IX

Imaginem vocês que é o proprio conde que está falando.

Eu lhe conto, disse-me o conde.

E, accendendo vagarosamente o seu charuto, cruzando a perna direita sobre o fémur da esquerda, contou, com o seu habitual sorriso, levemente malicioso:

—Estava eu em Pariz, onde tinha ido mais uma vez com o pretexto de assistir ás festas de 14 de julho. Oito dias depois, como os jornaes me avisassem de que todo o Pariz—o Pariz doente e o Pariz são—havia desertado para os Pyrineus, resolvi partir tambem, para fazer alguma coisa, e para não ficar... só! Tomei o primeiro expresso, e, ao cabo de 19 horas de viagem, apeava-me na estação de Pierrefite.

Achei-me, mal puz o pé em terra, em plena vida: a grande vida dos Pyrineus no estio.{92}

Bastas massas de verdura engrinaldavam pittorescamente os rochedos, e a paisagem formosissima do valle de Argelès, contrastando com as aguas revoltas do Gave, seria capaz de me inspirar uma écloga, se eu tivesse a bossa de poeta bucolico.

Na estação havia uma espessa agglomeração de gente, um borborinho estridulo, que me fez acreditar que todos os doentes que se sobrescriptavam para Cauterets iam de perfeita saude, a começar por mim...

Os omnibus dos hoteis solicitavam-me, na razão de 2 francos e 50 centimos, por duas horas de caminho; os cocheiros das caléches disputavam-me a cabeça por dez francos. Preferi os omnibus, por nada menos de tres razões: