Quizeram os francezes, depois da invasão do Porto, estender a sua victoria pelo paiz inteiro. Immediatamente se assenhorearam de Valença e Vianna, tentando simultaneamente passar a Traz-os-Montes, mas foram duas vezes repellidos n'essa tentativa.
Beliscados na sua vaidade de conquistadores, tinham mandado sobre Amarante no dia 9 uma força, que recuou perseguida pelo general Silveira. Appareceu porém, reforçada, no dia 15, travando combate em Manhufe e Villa Meã durante trez dias para dar tempo a soccorrel-a os quatro mil homens de Loison e De Laborde, que, partindo de Guimarães, lograriam colher os portuguezes pela rectaguarda.
A pericia do general Silveira frustrou-lhes o intento com um rapido e habil movimento sobre Amarante. Os portuguezes occupavam a margem esquerda do Tamega; os francezes a direita.
O empenho do inimigo era atravessar a ponte. Desesperados pela valorosa resistencia dos portuguezes, pegaram fogo, na noite de 18, a toda a villa. A crueza do inimigo mais pareceu atiçar a coragem dos nossos, cuja resistencia recrudesceu no dia immediato, apesar de reforçados os francezes pelas brigadas de Sarrut e Marisy.
Estas eram as evoluções das tropas inimigas, em Amarante, á hora em que deixamos Graça Strech e Rosina Regnau em caminho do acampamento portuguez.
Tempo depois, um poeta conterraneo, mais familiar ás armas d'Apollo que de Marte, encarecia no seguinte soneto a gloria do general Silveira, cuja tactica elle provavelmente estivera contemplando de sitio aonde já não podiam chegar pelouros:
Uma nuvem de fumo o ar povôa,
E do Tamega enluta as margens frias,
O portuguez canhão quatorze dias,
Sem descanço algum ter, fuzila e trôa.[{81}]De um lado a outro lado a morte vôa
Por entre essas crueis artilharias,
E perdendo as antigas ousadias,
Curva ao duro francez a altiva prôa.Amigos hespanhoes, nação brilhante!
Eis como cá seguimos vossa esteira,
Eis nossa Saragoça, eis Amarante.Os olhos ponha em nós a Europa inteira,
E veja, em amplo quadro flammejante,
O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira.
Pena foi que Graça Strech precedesse alguns dias a gestação do soneto escripto em honra de Silveira, porque, de contrario, se topasse o poeta a versejar em ociosa inactividade, havel-o ia empurrado, no seu vivissimo odio contra os francezes, para o meio da infatigavel fuzilaria que durante quatorze dias sinistramente illuminou as aguas do Tamega.
O que valeu foi que, se houve poetas para incensar metricamente Silveira[8], houve tambem soldados que denodadamente pelejaram pela patria.
E o numero dos valentes da ponte d'Amarante ia agora ser augmentado com um soldado que seria o primeiro a romper fogo contra o inimigo.