Mas a--sêde devoradora--polydipsia, é um symptoma da diabetes saccharina, que anda muitas vezes ligada ás nevroses e, principalmente, á epilepsia.

Não repugna acreditar que a sêde exagerada e continua, que abrazava o principe, derivasse d'esse conjuncto pathologico recebido por herança e aggravado por excessos.

E que os chronistas não empregavam a palavra sêde em sentido figurado, vê-se d'estas palavras da chronica attribuida a D. Manuel de Menezes: «mas elle (o principe) perseguido da sêde levantou-se uma manhã da cama a beber agua da chuva, que achou empoçada ao pé de uma janella, por descuido dos que lhe assistiam, que então o deixaram só, e sendo muita, e choca, fez-lhe muito mais mal, e logo empeiorou, e morreu no dia seguinte».

A princeza, excitada pelas sensações amorosas e pelos sobresaltos da gravidez, redobrou de hysterismos, teve allucinadas visões, pavores imaginarios, de que ficou noticia.

Na véspera do principe cahir doente, estando elle a dormir, julgou ella vêr, á luz da tocha que allumiava a camara conjugal, surgir uma figura de mulher vestida de luto, com larga touca, a qual mulher, crescendo em vulto, ameaçadora, fez estrincar os dedos e, após um assopro que parecia o halito quente d'uma féra, desappareceu.

A princeza ficou n'uma grande perturbação de terror, julgando verdadeira a visão, e interpretou-a no sentido de que o assopro annunciava que todas as suas esperanças haviam de desfazer-se em vento.

Quanto ao trinco com os dedos não interpretou coisa nenhuma ou as chronicas o não dizem.

Tendo fallecido o principe D. João[[22]] sem que a princeza o soubesse ao certo, posto o suspeitasse, e já nas vésperas do parto, as damas que acompanhavam D. Joanna quizeram leval-a a espairecer na Varanda da Pella, do Paço da Ribeira,

[22] O principe falleceu em terça feira 2 de janeiro de 1554, dezoito dias antes do parto da princeza.

O palacio dos pricipes era o de Alvaro Peres de Andrade, junto ao Arco dos Pregos, mas communicava interiormente com o palacio real.