A princeza, profundamente abatida, deixou-se conduzir. A noite e o silencio favoreceram ainda d'esta vez o terror, sempre contagioso, mórmente entre as impressionaveis damas, que os tristes acontecimentos da côrte traziam sobresaltadas.

Bastaria, portanto, que a princeza tivesse uma visão, para que logo fossem egualmente suggestionadas as suas damas, portuguezas e castelhanas.

Assim, pois, todas julgaram vêr sahir pela Varanda d'El-rei, direitos ao Forte[[23]], muitos homens vestidos á moirisca, com fatos de variegadas cores, agitando tochas accêsas e soltando repetidas vozes de--Ly, ly, ly. Eira uma especie de dança macabra, em que os moiros revoluteavam, despedindo clarões e gritos; e quando a chorea, percorrendo a Varanda, chegava ao Forte, os moiros precipitavam-se ao Tejo, deixando no silencio da noite uma atmosphera soturna de terror e mysterio.

[23] O Forte, nome que depois conservou o torreão mandado construir por Filippe II, rematava sobre o Tejo, uma vasta galeria com terraço, a meio do qual se erguia uma torre ameiada.

As damas fizeram decerto alarma. Acudiria gente do Paço, que não soube explicar a apparição sinistra dos moiros. Reconheceu-se que as portas estavam fechadas; que o ingresso de estranhos era impossivel. Então cresceria o pavor, e com elle a predisposição para repetir-se a visualidade no mesmo local e nas mesmas condições.

Foi o que aconteceu. Poucos dias depois tornou a princeza á Varanda da Pella, fez algum exercicio passeiando; depois sentou-se a uma das janellas e então se lhe renovou a visão dos moiros, com os mesmos trajes, as mesmas tochas, os mesmos gritos--na mesma farandola sinistra.

A princeza e as suas damas fugiram espavoridas sob a mesma suggestão, pelo contagio do terror. Todas «tinham visto» segunda vez os moiros. Lembra-nos, por analogia, um facto que Renan refere nos Apostolos. Entre os protestantes perseguidos correu voz de que, nas ruinas de um templo destruido recentemente, se ouviam psalmos cantados pelos anjos; tanto bastou para que todos os protestantes que se aproximavam d'aquellas ruinas, ouvissem os psalmos.

O rei e a rainha, informados do que se passava, recommendaram segredo.

Convinha não excitar mais a superstição popular, que já estava muito exaltada por varios factos anteriores, taes como o desacato praticado por um inglez, logo depois do casamento do principe na capella do Paço; e a apparição de um meteóro luminoso que todas as noites era visivel em Lisboa, quasi em cima da Sé, e parecia tomar a fórma de um athaúde.

Dos nove filhos legitimos de D. João III ficára apenas um, o principe D. João, e o povo já sabia que elle tinha morrido tambem, posto se occultasse a sua morte.