Se o parto da princeza se mallograsse, acabar-se-ia a successão directa. Portugal perderia a sua independencia, não porque el-rei não tivesse irmãos, que poderiam succeder-lhe no throno, mas porque pelo contrato de casamento da princeza D. Maria, filha de D. João III, com Filippe II, a corôa portugueza passaria para D. Carlos, filho d'aquella princeza.

Por isso o povo, cuidadoso de ver garantida a independencia do reino, «desejava» que a princeza D. Joanna desse á luz um filho varão.

O arcebispo de Lisboa ordenára uma procissão de préces, que se effectuaria logo que a princeza começasse a sentir as dores do parto.

Pela meia noite de 19 a 20 de janeiro[[24]] de 1554, quando os sinos dos conventos tocavam a matinas, houve rebate de que a princeza experimentava os primeiros symptomas do parto. Logo se organizou a procissão, que sahiu da Sé para S. Domingos. Rompia a manhã quando a procissão ia recolhendo á Sé e então se espalhou «a nova feliz de ter nascido o desejado[[25]]

[24] Dia de S. Sebastião, motivo por que recebeu este nome o herdeiro da coroa.

[25] Portugal cuidadoso e lastimado, pag. 2.

Desejado foi em verdade D. Sebastião, e duas vezes o foi, antes de ter nascido e depois de ter morrido.

Em taes circunstancias, o nascimento do herdeiro da corôa teve a importancia de um acontecimento nacional, que profundamente interessou a alma popular. Não foi apenas um regosijo privativo da familia real ou da côrte, como acontece sempre que nasce «mais um» principe. Aquelle que tinha nascido era «o unico» fiador possivel da autonomia de Portugal: por isso tal acontecimento poz em jogo o brio, o orgulho, o amor patrio de todos os portuguezes.

Antes do parto, organizam-se devoções propiciatorias, em que o povo se mistura com o alto clero, fundindo suas preces.

Em Santarem até as creanças effectuam procissões nocturnas, piedosa pratica infantil, que foi muito nossa, e que apparecia sempre nas grandes crises nacionaes, revestindo um gracioso caracter de ingenuidade religiosa e de fé simples.