Eram procissões minusculas, com pequenos andores, pequenas lanternas, sendo o prestito constituido por homensinhos lilliputianos, rapazes da rua, creanças do povo, que iam entoando ladainhas e psalmos numa unisonancia de vozes ainda debeis e esganiçadas.

É peculiar á infancia o espirito de imitação, maiormente entre as classes populares. Nos filhos do povo encontram sempre écco os acontecimentos que tomam maior relevo na vida da nação. Dir-se-ia que por viverem na rua são mais depressa sacudidos pela opinião publica do que os filhos dos nobres. Por isso são as creanças da arraya miuda que propagam, inconscientemente, as canções politicas, os hymnos revolucionarios, e que muitas vezes se encarregam de fazer a critica e inventar a parodia dos negocios do Estado e dos mais ruidosos conflictos da administração publica.

As procissões infantis duraram seculos. Viram-n'as os contemporaneos de D. João III. Viu-as Filinto Elysio, que nos descreve uma que todos os annos, pela quaresma, vinha da Ajuda exhibir nas ruas de Lisboa muitos «Senhorsinhos dos Passos» allumiados com rolinhos de cêra. Vi-as ainda eu na minha infancia, que passei n'aquella devota, patriotica e antiga cidade do Porto.

Foi bom termos tido occasião de falar do povo, pois que tomando por assumpto uma celebridade das ruas, como era o poeta Chiado, já se ia alongando de mais a narrativa sobre a vida da côrte, sem pausa nem fôlego, que désse tempo a pensar em quem vegeta no infimo grau da escala social--tal como no fundo de um poço escuro o musgo rasteiro.

Podemos agora tornar á côrte. D. João III, para não lançar maior perturbação nos espiritos, já muito apprehensivos e agitados, ordenou, pois, que se não divulgasse a visão da princeza na Varanda da Pella.

El-rei, receioso do futuro, sentia o peso de todas as suas responsabilidades politicas, que eram enormes desde que, por um imprudente contrato de casamento, a independencia do reino ficava suspensa do nascimento de um successor varão.

Mas o que D. João III não podia prohibir era que a princeza D. Joanna continuasse a ter visões, que aliás se repetiram.

Uma noite, na sua camara, tornou a princeza a vêr os moiros, que entravam e sahiam em tropel. Cahiu logo desmaiada no regaço de uma dama, e nem essa nem as outras receberam a suggestão, porque a princeza não teve tempo de falar.

Pareceu a todas que apenas seria uma syncope propria da gravidez; mas depois, explicado o caso, apurou-se que ainda mais uma vez tinham «apparecido» os moiros.

A crença popular relaciona sempre o maravilhoso com a vida das altas personagens e a realização dos grandes acontecimentos historicos. É um fundo de superstição commum a todos os povos. Assim, entre nós, encontrou-se uma relação sobrenatural entre a visão dos moiros e a derrota de D. Sebastião em Alcacerquibir.