Que a princeza D. Joanna tivesse allucinações e visualidades pavorosas, cabalmente o pode explicar a medicina; que os phantasmas que ella julgava ver, fossem moiros, basta que o diga a lenda, urdida a posteriore, depois da perda de D. Sebastião em Africa.
De outras visões falam ainda as chronicas, todas n'um sentido lugubre e presago, como era proprio do estado morbido da princeza e das suas condições physiologicas.
Accordava de noite em sobresalto, queixando-se de não ver nada, de ter ouvido estrondos mysteriosos, vozes afflictivas, taes como suspiros maguados, gemidos cortantes.
No leito de dois doentes foi gerado um filho doentissimo, cuja cabeça, por desgraça nossa, havia de cingir a corôa de Portugal.
Depois do parto, o hysterismo da princeza tornou-se essencialmente mystico, tanto em Portugal como em Castella, para onde voltou.
Contribuiram para esta evolução, aliás naturalissima em taes circumstancias, as relações de D. Joanna com o padre Francisco de Borja, primeiro em Lisboa, depois em Madrid. Essas relações, por demasiado assiduas, chegaram a tornar-se suspeitas; e Francisco de Borja, que se retirou para Portugal quando a suspeição cresceu, teve de procurar justificar-se n'uma carta que, em 1561, dirigiu do Porto a Filippe II.
D. Joanna fundou em Madrid um convento á imitação do da Madre de Deus, de Lisboa[[26]]; é o das Descalzas Reales, cuja historia Ricardo Sepulveda traçou n'um dos capitulos da sua interessante obra Madrid viejo.
[26] Hist. Gen., t. III, pag. 559
Tal foi a princeza que o bispo de Coimbra D. Fr. João Soares e o duque de Aveiro foram receber á fronteira do Alemtejo, quando ella veiu desposar o mallogrado principe D. João[[27]].
[27] D. Joanna morreu com 38 annos, no Escorial, a 7 de setembro de 1573.