—Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que não corro o risco de ter que contrariar a opinião de V. Ex.ª em sua propria casa, devo declarar-lhe o meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora peço mil perdões a V. Ex.ª por ter usado de um disfarce, que me foi imposto pelo respeito e consideração que devia a V. Ex.ª Eu não podia, na sua presença, ter uma opinião que, sobre tão melindroso negocio de familia, lhe causasse desgosto.
O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr.ª D. Anna respondeu com indulgente cortezia, dizendo:
—Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou. [Em 1892 o Nuno, estando nós na Povoa, mostrou-me V. no Café Chinez;] no dia seguinte tornámos a vêl-o de tarde, no Passeio Alegre. E o Nuno dizia-me então: «Não haver aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse reconciliar-nos!» O que é certo é que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal podia acreditar n'uma tão completa similhança entre a pessoa que eu vira na Povoa e a pessoa que hoje me visitava com nome differente.
O sr. Carvalho, de pé, no meio da sala, continuava a sorrir triumphalmente, esperando a occasião de dizer:[{31}]
—A mim tambem não me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trêpa: «Este não é o Alberto Pimentel?»
E o sr. Adriano Trêpa confirmou:
—Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo braço.
—O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho.
—Que tinha a certeza de que não era outra pessoa.
O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na Povoa de Varzim, viera esperar-me á estação com o Nuno no anno em que eu ali fôra visitar Camillo.