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Reatemos a narrativa no ponto em que a deixámos: o motivo do meu disfarce.
A sr.ª D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha desgosto de haver provocado a questão a que me constrangeu logo depois da morte de seu pae; mas que fôra arrastado a isso por despeitos de familia, em consequencia de sua irmã ter mandado depôr uma corôa, com palavras de filial saudade, sobre o féretro de Camillo.
O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou:
—Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto do Protesto, disse-lhe eu: «Não faças isso, Nuno, que é uma loucura. Vaes contradizer a verdade. E olha que chega para todos vós a gloria de teu pae.»
—Mas o Nuno, insistiu a sr.ª D. Anna, estava arrependido[{35}] e não tinha odio nenhum a V. E a sr.ª viscondessa sempre, n'outras occasiões, se lhe mostrou muito affeiçoada, falando de V. com especial estima.
Certifiquei a sr.ª D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa deploravel questão e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas uma insinuação que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o dinheiro, defendia a causa da filha de Camillo, quando é certo que eu nunca tivera intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que até o não conheço. Mas essa mesma insinuação ficava esquecida, como se nunca houvesse existido, desde o momento em que eu tinha a certeza de que Nuno Castello Branco se arrependêra de a ter escripto.
No decurso da conversação vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se eu fosse já um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado ali, o que me recompensou largamente de quantos desgostos a questão do Protesto me causou.
Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida.
O pequeno Camillo viera sentar-se no sophá, a meu lado, interessando-se muito, com a mão enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversação.