A sr.ª D. Anna Corrêa tivera a encantadora bondade de dizer-me:
—Apesar da recommendação da sr.ª viscondessa quanto aos livros do sr. visconde, eu quero mostral-os a V.: é a maior prova de estima que posso dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr.ª viscondessa fosse viva,[{36}] procederia do mesmo modo. Tambem ella faria esta excepção.
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D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vêr o que resta da bibliotheca de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas estantes envidraçadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de ter visto uma genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois meus: A Jornada dos Seculos e a Flor de myosótis.
Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava temporadas.
É um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes até alcançar o cume de montes longinquos.
Quando Camillo habitava aquelle quarto, já estava cego. Mas se não podia contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os bastos pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o aposento.
A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que a floresta dormente.
Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordações de um passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura.
Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu camilliano.[{37}]