«No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter debicado as primeiras uvas e pêras do quintal da casa. Um ligeiro laxante deu-lhe melhoras, que infelizmente se não mantiveram, cahindo com desmaios e não podendo conciliar o somno.
«A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em quando gemia e invocava a[{39}] Deus! Durante um desmaio na manhã do dia em que morreu, foi ungido.
«Não se lhe notou á hora da morte o intervallo lucido, que ás vezes apparece nas doenças mentaes.
«Tinha, porém, amor á vida, esperando obter melhoras dos remedios, que só tomava nos caldos e leite pela mão da sua desvelada enfermeira D. Anna Corrêa, que foi para o infeliz louco uma carinhosa mãe.
«Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado da sua apresentação e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da nossa conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e soffrimento, que lhe deram os desgraçados com quem viveu. A mulher só se engrandece pela bondade, que é a sua belleza moral.
«O grande desejo de D. Anna é educar bem os seus filhos, mas como poderá desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? É urgente abrir uma campanha a favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas bemfazejas. Inicie v. na imprensa periodica esta nobilissima missão. Os dois filhos mais velhos são intelligentes, principalmente o Camillo, que eu fixei com attenção e descobri-lhe traços physionomicos do glorioso avô. O rapaz é triste e concentrado e quer ser Padre... Até n'isto se parece com o grande escriptor, que no verdor dos annos pensou em se prender á Egreja. A sua ultima assignatura foi no assento do baptismo d'este seu neto e afilhado,[{40}] feita em casa de Nuno e sobre um piano, por lhe ficar mais a geito.
«Ao sahir da casa de D. Anna Corrêa olhei para a outra proxima, aonde viveu e morreu o incomparavel prosador portuguez. Está agora mal pintada de amarello e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de Camillo apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora, esmaltada sempre de ironias, cortantes como o nordeste.
«Que tristeza e que lição para todos nós! Creia-me sempre
De V. etc.
José de Azevedo e Meneses.