Costumavam outr'ora as criadas velhas contar ás creanças da casa lindas historias de reis e principes encantados.
Camillo, que foi de algum modo o meu niñero espiritual, falava-me muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canções lhe chamou Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador das creanças e propugnador da felicidade do povo pela instrucção e pela agricultura.
Era Castilho, rei das canções, principe das letras, cego como Œdipo, o famoso rei de Thebas.
E assim como Œdipo encontrava o braço de sua filha Antigone para guial-o carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braços de seus filhos outros tantos bordões amorosos que o ajudavam a firmar os passos incertos e vacillantes.
Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava dá eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romance Agulha em palheiro:
Ao poeta das creanças, das flores, do amor,
da melancholia e dos desgraçados,
ao illustrissimo e excellentissimo senhor
Antonio Feliciano de Castilho,
honra da patria
honra dos que o prezam, e amam a patria
offerece
o amigo, o respeitador, o discipulo mais devedor
Camillo Castello Branco
Em outro livro, No Bom Jesus do Monte, cita Castilho a par de Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que dá «á humanidade orgulho de o proferir».
Durante a Questão Coimbrã, nas Vaidades irritadas e irritantes vem á estacada quebrar lanças pela gloria de Castilho, e escreve: «... o mais enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais que eu lhe devesse e o amasse...»
Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com Camillo a amar Castilho.