A cada novo trecho cresciam os applausos; a impressão tornava-se geral no auditorio.
E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia[{67}] de todos os moços, saltava de um canto a outro do poema recordando estrophes:
Um dia... quando, não sei;
fui vêr as gastas ruinas
d'um velhissimo castello
que ao desamparo encontrei,
mas que, apesar de esquecido
na solidão, era bello.Achei-o todo vestido
de tenaz era viçosa;
e ornado de verde brilho,
lembrou-me um velho casquilho
que espera noiva formosa.
De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as cartas, e escutavam attentos:
Que triste vida na choça,
que funda melancolia,
que rostos tão macerados,
que suspiros abafados
cada noite e cada dia!noites de eterna vigilia,
dias curtos para a lida,
recordações da opulencia,
amarguras da indigencia...
que vida, Jesus! que vida!
Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lêr todo o poema, para decoral-o todo.
No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia debaxo do braço um livro de capa amarella.[{68}]
Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitação da vespera.
Então, como um faminto que se lança vorazmente sobre um manjar inesperado, eu, quando os outros acabavam de lêr, devorava pagina a pagina, canto a canto, lendo e decorando, com a mesma facilidade com que hoje vou esquecendo...
Annos depois—não foram muitos—quando Castilho protegeu as minhas estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro escreveu-me algumas cartas que religiosamente conservo entre montões de outras suas escriptas de toda a parte.