Portugal ficará sendo eternamente o—jardim da Europa[{70}] á beira mar plantado—verso que tem servido para todos e para tudo que, em bem e mal, se escreve a respeito do nosso paiz.
A «Conversação preambular» do D. Jayme, escripta por Castilho, foi tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e é realmente discutivel em algumas das suas affirmações.
Mas o enthusiasmo que alvoroçou o espirito reflectido de Castilho adduz mais uma prova da enorme sensação causada pelo D. Jayme, até nos julgadores de maior competencia profissional.
Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto, pelos affectos, pela paisagem, pela dicção, pondo de mais a mais em evidencia a riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de côr que possuia a lingua portugueza.
Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo á oitava-rima, e dos moldes da revolução romantica, fugindo ao verso branco.
Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradições e costumes nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da provincia—fogaça, campeiro, velleiro—com toda a alma de um povo a cantar á flôr dos versos e o caracter nacional sobresaindo em alto relevo no caracter do protogonista:
Entrei, raivando vinganças,
Sahi, jurando perdão.
Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regiões do mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim aconteceu, não só em Portugal, mas tambem no Brazil e na India.
Do D. Jayme nasceram logo outros poemas: Em Lisboa,[{71}] Roberto ou a dominação dos agiotas, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil, Leonor, imitação flagrante.
Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro de Portugal, ainda lá encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a sua escolha foi julgada a mais opportuna para reatar as relações que um ligeiro conflicto tinha interrompido entre os dois paizes irmãos.