De feito, em 1463, foi declarado que D. Joanna ia novamente ser mãe. Mas um caso imprevisto mallograra essa esperança. Referindo-se á rainha, diz Lafuente:
«Tinha o costume de humedecer e amaciar o cabello com um liquido, sem duvida inflammavel, e um dia, achando-se na sua camara, um forte raio de sol que entrava por uma janella e se projectava sobre a sua cabeça, incendiou-lhe o cabello, de modo que se as damas não fossem tão diligentes em acudir-lhe, haveria corrido o perigo de carbonizar-se. Mas tanto bastou para que o susto antecipasse o parto de um feto de seis mezes, que nasceu sem vida, e que pela circumstancia de ser varão produziu no rei maior pesar. Fizeram-se sinistros agoiros sobre o caso, e não faltou quem vaticinasse desgraças para o rei e a rainha.»
Bem agoirado corria o tempo, mas era para D. Beltrão de Lacueva, que, graças á posição a que se guindara, tratou casamento com uma filha do marquez de Santilhana. D’este modo conseguia aparentar-se com a poderosa familia dos Mendonças. Estava na esteira para o méstrado de S. Tiago. Fazia sombra e receio ao marquez de Vilhena. Levantava-se n’um pedestal de oiro, e a conspiração, tão vulgar em todas as côrtes, principalmente na de Castella, principiava a minar-lhe o pedestal.
Entretanto, sobre as finas hollandas e custosas sedas, que alfaiavam o catresinho da princeza das Asturias cahia, como um enorme pingo de lama e fel, a risada sarcastica das multidões, appellidando-a de Beltraneja.
E essa alcunha havia de ficar-lhe para toda a vida, como um ridiculo cruel agrilhoado ao seu triste destino.