No numero dos cavalleiros promptos a combater pelo rei Henrique estava Beltrão de Lacueva. Sobre elle recahiam principalmente os odios dos adversarios, e tanto que o arcebispo de Sevilha lhe enviou um mensageiro com recado de que quarenta cavalleiros de D. Affonso e do arcebispo de Toledo haviam feito voto solenne de matal-o no combate que ia empenhar-se. Beltrão respondeu com altivez castelhana que reparasse bem o mensageiro nas armas e insignias, que trazia vestidas, para que os que alli o mandaram pudessem, por sua informação, reconhecer facilmente o duque de Albuquerque.
O combate travou-se com impeto, e o duque de Albuquerque defendeu-se valorosamente dos golpes que lhe vibravam os que haviam jurado matal-o. Valeu-lhe n’um aperto perigoso o marquez de Santilhana, seu sogro. O duque portou-se bravamente; de um lado e do outro combateu-se com ardor; porêm, no fim da peleja, a victoria não fôra decisiva nem para uns, nem para outros.
D. Affonso esteve no campo, combatendo entre os seus, mas D. Henrique julgou mais prudente retirar-se, com trinta ou quarenta cavallos, para uma povoação immediata.
Um acontecimento politico veio, porêm, aggravar a situação do rei Henrique: a infanta D. Isabel juntara-se com seu irmão D. Affonso.
Vejamos qual era, pouco antes, a situação da familia real.
A rainha com a infanta D. Isabel estavam em Segovia, e ahi tinham n’esse momento todo o seu thesoiro e joias. A Beltraneja havia sido entregue ao conde de Tendilha, para que a guardasse em Buitrago. Os rebeldes lograram tomar Segovia, e a rainha refugiara-se no castello, mas a infanta D. Isabel teimou em ficar no palacio, a fim de poder juntar-se com seu irmão. Foi o que succedeu. Tambem os rebeldes se apoderaram do alcacer, sendo a rainha conduzida em refens, sob a vigilancia do arcebispo de Sevilha, ao castello de Alaejos, onde iremos encontral-a.
O acto praticado pela infanta D. Isabel parecia dever reforçar a attitude dos affonsinos, mas não aconteceu assim, porque elles tinham no seu proprio seio grandes elementos de discordia. Um d’esses elementos era o marquez de Vilhena, cuja ambição abhorrecia aos seus mesmos amigos. Porisso os condes de Placencia e Miranda e o arcebispo de Toledo passaram-se para o partido do rei, e Vilhena correu risco de ser assassinado pelo genro, o conde de Benavente.
Um outro acontecimento, verdadeiramente inesperado, veio pôr em confusão os affonsinos. A 5 de julho de 1468, estando D. Affonso na villa de Cardenosa, a duas leguas de Avila, foi atacado de um somno profundissimo logo depois de haver comido. Pela manhã, como não sahisse da camara, foram chamal-o: estava morto. O veneno havia produzido o seu effeito. D. Affonso morrera uma creança, quinze annos apenas.
Os affonsinos, aturdidos com este golpe, recolheram-se a Avila. Ahi pensaram no que deviam fazer. Resolveram offerecer o throno a D. Isabel, mas a infanta respondeu com hombridade: que em quanto seu irmão D. Henrique fosse vivo, o rei legitimo era elle.