Desde esse momento a posição de Henrique iv seria facil, se elle tivera mais energia. Podia impor-se, mas não fez assim. O marquez de Vilhena propoz em nome dos conjurados prestar-lhe obediencia se o rei consentisse em reconhecer D. Isabel como herdeira do throno. Henrique iv annuiu logo.

O marquez de Santilhana e todos os Mendonças, a cuja guarda estava confiada a Beltraneja, indignaram-se com este procedimento do rei. Sahiram immediatamente da côrte. A rainha D. Joanna estava, como dissemos, em poder do arcebispo de Sevilha no castello de Alaejos, e parece que um sobrinho do arcebispo, de nome D. Pedro, entretivera por algum tempo os ocios da rainha captiva.[9]

Mas os Mendonças encarregaram D. Luiz Furtado de arrancar a rainha ao seu captiveiro. Uma noite, D. Joanna desceu por uma janella do castello, ferindo-se na descida. Luiz Furtado pol-a sobre as ancas da mula, e a largo trote a levou para Buitrago, onde sua filha estava.

Entretanto concertava o rei com os confederados as bases do accordo: D. Isabel seria jurada herdeira do throno, e ser-lhe-iam dadas para seu corregimento varias cidades e villas; reunir-se-iam côrtes para sanccionar estes actos; D. Isabel não seria constrangida a casar, nem casaria sem consentimento do rei; a rainha considerar-se-ia como divorciada, seria enviada para fóra do reino, e não poderia levar comsigo a filha.

Henrique IV acceitou de boamente todas estas condições humilhantes. Ouviu ler o documento comprovativo da sua propria deshonra. «Item, porquanto ao dicto senhor rei, e commumente em todos estes reinos e senhorios é publico e manifesto, que a rainha D. Joanna, de um anno a esta parte, não tem usado limpamente de sua pessoa como cumpre á honra do dicto senhor rei, nem sua; e outrosim o dicto senhor rei é informado que não foi nem está legitimamente casado com ella... etc.» Henrique IV assignou, e dirigiu-se com sua irmã para o campo de Toros de Guisando, onde D. Isabel foi solennemente jurada herdeira do throno, com assistencia de nobres e prelados, e do legado pontificio que, em nome do papa, desligou todos os presentes de quaesquer outros juramentos, que houvessem feito.

O marquez de Vilhena aproveitou a occasião para ser confirmado na posse do mestrado de S. Tiago, e o rei Henrique julgou-se por certo o mais ditoso dos homens coroados.

A rainha, tendo conhecimento da intervenção do legado pontificio no reconhecimento dos direitos da infanta D. Isabel, enviou Luiz Furtado, o seu salvador do castello de Alaejos, a protestar junto do representante do papa, ameaçando-o de fazer subir o seu recurso a Roma, se elle a não attendesse. A familia dos Mendonças, fiel ao partido da rainha, vira com indignação tudo quanto se passava. O marquez de Vilhena soube-o, e tratou logo de explorar a indignação dos Mendonças, a fim de obstar a que a infanta D. Isabel viesse a casar com o infante D. Fernando de Aragão, casamento a que a infanta se inclinava, e que o arcebispo de Toledo promovia. Era uma razão de interesse pessoal, como sempre, a que demovia n’este lance o marquez de Vilhena. Tinham sido encorporadas no seu marquezado muitas das propriedades sequestradas aos infantes de Aragão, e temia perdel-as pelo casamento da infanta com um principe d’aquella casa real. Então o marquez de Vilhena não duvidou fortalecer com o seu apoio o partido da rainha e, para obstar ao casamento que o contrariava, renovou o antigo alvitre de que a infanta D. Isabel desposasse D. Affonso V, de Portugal, e a princeza D. Joanna o principe herdeiro portuguez: no caso da infanta não ter filhos de Affonso, o Africano, succederiam no throno de Castella os que a Beltraneja houvesse dado ao principe D. João.

Houve idéa de que a rainha D. Joanna viesse pessoalmente a Portugal tratar d’estas allianças. Mas a pobre rainha, que continuava a ser perseguida pelo arcebispo de Sevilha, a cujo poder lograra subtrahir-se, receou que fosse esse um pretexto para não a deixarem voltar a Castella. Venceu a rainha; não veio a Portugal. De mais a mais a infanta D. Isabel tomara uma attitude energica, recusava tenazmente casar com Affonso V.

Henrique IV, incoherente, como sempre, escreveu de seu proprio punho ao papa para que não confirmasse a successão de D. Isabel; ao mesmo passo sollicitava a confirmação pontificia aos direitos da Beltraneja. Escrevia tambem ao rei de Portugal para que insistisse em desposar a infanta.[10] «Estas cartas, diz o padre Flores, foram entregues ao chronista D. Diogo Henriques de Castilho (a quem seguimos) para que secreta e promptamente as levasse a Buitrago, onde estava a rainha com sua filha, e fossem dirigidas com presteza a Lisboa e a Roma, como aconteceu, com grande sentimento do arcebispo de Sevilha (quando o soube), mas sem alvoroto, por mediar o mestre de S. Tiago.»

Affonso V estava lançado no plano inclinado do desastre. Obedeceu ao pedido. A historia do segundo casamento do rei portuguez, nunca realizado, é uma serie de fiascos, como hoje dizemos; o egregio vencedor de Africa collocara-se n’um terreno escorregadio, e fora resvalando até abysmar-se no ridiculo.