Segundo o testemunho de Lafuente, que se póde contraprovar em Damião de Goes,[11] Affonso V enviara a Ocanha, onde estava Henrique IV, uma solenne embaixada a pedir a mão da infanta D. Isabel.[12] De Roma chegara a vir uma bulla de Paulo II, dispensando para o matrimonio da infanta D. Isabel com seu tio D. Affonso V.[13] Assim respondia o rei portuguez á carta de seu cunhado. Mas essa embaixada solenne chegava tarde a Castella. O arcebispo de Toledo apressara-se a tratar o casamento da infanta com D. Fernando de Aragão, que já a esse tempo se intitulava rei da Sicilia.
O prelado não perdera tempo, nem podia perder, porque o marquez de Vilhena e o rei estavam dispostos a vencer pela força a tenacidade da infanta. Pensaram em mandal-a presa para o alcacer de Madrid, mas recearam-se dos habitantes de Ocanha que ridicularizavam em chistes e satiras as pretensões de um viuvo de trinta e sete annos, como era então Affonso V, á mão de uma donzellinha de dezoito, que naturalmente lhe preferia um rapaz da sua idade, a mais florente de vida.
Era certo que, pelo tratado de Toros de Guisando, a infanta D. Isabel não podia casar sem consentimento do rei, seu irmão. Mas o que valiam tratados em Castella, sobretudo no tempo de Henrique IV, que tão depressa os fazia como desfazia?!
O arcebispo de Toledo não perdera tempo, dissemos nós. E não podia perder, porque, alem de Affonso V, pretendiam a mão da infanta o duque de Guyena, irmão de Luiz XI, e um irmão do rei Eduardo IV, de Inglaterra.
O rei Henrique tivera que passar á Andaluzia, para socegar aquella provincia. Antes de partir pediu á irmã que não abusasse da sua ausencia. A infanta prometteu, mas por conselho do arcebispo, e a pretexto de fazer trasladar para Avila o cadaver de seu irmão Affonso, sahiu de Ocanha para o Madrigal, onde estava sua mãe, a rainha viuva. Estava, porêm, em Madrigal o bispo de Burgos, sobrinho do marquez de Vilhena, que andava com o rei pela Andaluzia. O bispo informava o tio do que se passava. A espionagem era infatigavel; choviam as ameaças contra as damas da infanta, e contra ella propria, que ia ser presa por ordem do rei, quando o arcebispo de Toledo e o almirante D. Fradique conseguiram arrancal-a á vigilancia dos espiões açulados pelo marquez de Vilhena, e leval-a em triumpho para Valhadolid.
O arcebispo fez partir emissarios de sua inteira confiança para Aragão a chamar o infante D. Fernando. A viagem dos emissarios, que temiam ser descobertos, foi accidentada de peripecias arriscadas. Chegaram a Saragoça, e conferenciaram com o infante. Foi combinado, que este partisse apenas acompanhado por seis cavalleiros, disfarçados de mercadores, e que por outro caminho sahisse uma partida figurando uma embaixada do rei de Aragão a Henrique IV. Sobre a falsa embaixada deviam incidir as attenções do publico, e as vistas dos espiões de Henrique IV.
Os seis cavalleiros jornadeavam de noite. O infante disfarçara-se em criado; nas poisadas tratava dos cavallos, e servia á mesa. Foi assim que os conspiradores conseguiram atravessar por entre os soldados do rei, que cruzavam vigilantes as estradas, e passar incolumes sob a linha de fortificações dos Mendonças, desde Almazan a Guadalajara. Uma noite, porêm, o infante esteve em risco de ser victima. Chegaram ao burgo de Osma, mortos de cançaço e frio. Chamaram á porta do castello do conde de Trevinho, que era partidario de D. Isabel. A sentinella, julgando serem inimigos, arrojou do alto do adarve uma pedra enorme, que passou junto á cabeça do infante. O chronista Palencia, que era da partida, deu então um grito; a sua voz foi reconhecida, e a porta do castello aberta. Restaurada de forças, a cavalgada seguiu viagem, e dois dos cavalleiros anteciparam-se para dar a boa nova á infanta.
Chegaram aos ouvidos do rei os rumores da conspiração. Henrique IV deu-se pressa em regressar da Andaluzia, e em Trujilho recebeu uma carta de D. Isabel participando-lhe a sua resolução de casar com o infante D. Fernando, e fazendo em nome de ambos muitos protestos de obediencia ao rei se elle não contrariasse este casamento, cujas vantagens para a monarchia a infanta ponderava.
Fernando de Aragão completou a viagem com os quatro cavalleiros que lhe restavam. Chegou de noite a Valhadolid, ás casas onde a infanta poisava. O arcebispo de Toledo levou-o á presença de Isabel, e Gutierres de Cárdenas, vendo entrar o infante, mancebo de dezoito annos, elegante e robusto, exclamou: Ese es, ese es.[14]