O casamento effectuou-se d’ahi a poucos dias, a 19 de outubro de 1469.[15] Estava, pois, dado o primeiro passo para a unidade hespanhola; esse casamento unia duas monarchias.

Celebradas as nupcias, os noivos enviaram uma embaixada a Henrique IV, participando-lhe que o casamento se havia realizado, remettendo-lhe copia das capitulações matrimoniaes, e assegurando-lhe obediencia, no caso do rei approvar o que estava feito.

A colera de Henrique IV foi enorme. Não lhe ficou inferior a do marquez de Vilhena, que havia perdido a partida. Toda a côrte era um vulcão de odios, que explodiam. Esperava-se apenas a hora da vingança, e essa hora pareceu haver soado quando uma embaixada de Luiz XI chegou, a pedir a mão da Beltraneja para o duque de Guyena, seu irmão e porventura herdeiro, que a infanta D. Isabel havia rejeitado.

Esta embaixada fortaleceu momentaneamente a causa da Beltraneja.

Foi recebida com grandes festas e pompa. O cardeal de Albi, um dos emissarios de Luiz XI, perguntou solennemente á rainha se a princeza D. Joanna era effectivamente filha do rei Henrique IV. A que baixezas tinham nascido predestinadas a irmã e a sobrinha de Affonso V! A rainha respondeu affirmativamente. Depois repetiu a pergunta o rei, e D. Joanna repetiu a affirmativa. Então todos os prelados e cavalleiros presentes beijaram a mão da Beltraneja, outra vez reconhecida herdeira do throno. A infanta D. Isabel, não obstante haver escripto uma nova carta de conciliação ao rei, e appellado para a arbitragem do bom conde de Haro, Fernandes de Velasco, que era tido em Castella como o mais serio caracter d’aquelle tempo, foi desherdada.

Henrique IV publicou contra sua irmã Isabel, já então mãe, um manifesto injurioso; a infanta respondeu com outro, incriminando o procedimento do rei. Entretanto nascera um filho de Luiz XI, o que afastava o conde de Guyena da successão do throno de França. Chegaram, não obstante, a fazer-se as capitulações matrimoniaes, mas o enthusiasmo de Henrique IV, por esse casamento, esfriara desde que a Luiz XI nascera um filho.

Diz o padre Flores que todas as diligencias se mallograram por ter morrido o noivo da Beltraneja. Esta asserção carece de reparo. O duque de Guyena só morreu, em Bordeus, em maio de 1472. Elle mesmo havia manifestado tambem pouca vontade de realizar o casamento contractado, chegando a solicitar a mão da herdeira do ducado de Borgonha. De parte a parte havia frieza. Ruy de Pina vem em reforço do que dizemos, noticiando varias embaixadas entre as côrtes de Portugal e Castella, em 1470 e 1471,[16] para tratar de casamentos. Mas como D. Isabel houvesse casado com o infante de Aragão, rei da Sicilia, e o infante D. João, de Portugal, houvesse casado em Setubal, a 22 de Janeiro de 1471, com sua prima D. Leonor, Henrique IV e Affonso V avistaram-se entre Elvas e Badajoz para combinar o casamento da Beltraneja com o rei de Portugal.[17]

D. Joanna e sua filha não assistiram a esta entrevista. Ficaram em Escalona, acompanhadas pelo bispo de Burgos.

Diz Pina que D. Isabel e D. Fernando enviaram embaixadores á entrevista, a fim de obstarem ao casamento de Affonso V com sua sobrinha. O rei de Portugal reuniu muitas vezes conselho para tratar d’este assumpto, mas sempre, em quanto Henrique IV viveu, sobrevieram duvidas e receios de graves complicações entre os dois paizes.

O padre Flores escreve que, em todas estas negociações, o rei de Portugal tinha grande desconfiança do mestre de S. Tiago. É natural que assim fosse, mas tambem é natural que influisse no animo de Affonso V a importancia que tinha realmente o partido de D. Isabel.